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Um Dia Uma Morte, em um âmbito mais amplo, é uma história
sobre a velhice e sobre a inexorabilidade do tempo. Um ancião é,
dentro de uma comunidade, e desde épocas imemoriais, alguém
a quem se dá maior valor: sua experiência e seu conhecimento
das coisas deste mundo são fatores extremamente consideráveis,
sobretudo em situações de conflito e perigo iminente. Resolvemos
inserir esta faceta da velhice, em detrimento do seu inverso, aquele que
diz que os velhos são pesos mortos e problemas para uma sociedade
cada vez mais jovem e tecnológica. Os idosos são, e sempre
serão, motores das comunidades, por perpetuarem o passado, e por
mostrarem aos jovens os caminhos a serem seguidos.
Se analisarmos o álbum em seu contexto mais específico,
porém, é a história de quatro jovens e seus anseios,
perante uma sociedade que não lhes deu muitas chances - afinal,
são moradores de uma favela. E, como em todas as classes, épocas
e localidades, os jovens têm as pretensões habituais: querem
se divertir e fazer o que gostam. Alcançar um lugar ao sol, a exemplo
de seus ídolos da TV, do rádio e dos estádios de
futebol.
Para retratar a vida destes jovens inserimos um elemento clássico
em histórias de aventuras, que vai nos remeter, literariamente,
a Mark Twain e R. L. Stevenson: a caça ao tesouro. De fato, o motor
da história é um pretenso tesouro, cujo mapa - encontrado
no bolso de um ancião recém-falecido - os levará
ao quintal da casa do maior e mais temido traficante da favela. Está
configurado o drama.
A favela onde se passa a história - ainda que, em momento algum,
seu nome seja citado - é a Pedreira Prado Lopes, local que tem
papel crucial na formação de Belo Horizonte. Se no passado
era de lá que saíam as pedras que calçam boa parte
da região central da cidade, hoje a comunidade convive com altos
índices de criminalidade, tráfico e guerras territoriais.
Por outro lado, programas de educação artística,
música e esportes contribuem para mudar o foco de atenção
dos jovens, cada vez mais ocupados em mostrar o que a comunidade deles
pode oferecer ao mundo.
Por fim, e apesar do parágrafo acima, fizemos de tudo para que
o ambiente retratado - a favela - não se tornasse um lugar de pobreza
e vilanias, como insistem em mostrar os meios de comunicação
tradicionais e o senso comum. Os cidadãos dali - jovens, adultos
e idosos - convivem, em níveis variados, com as mesmas dificuldades,
anseios, dúvidas e pretensões que os cidadãos de
outras comunidades, estados e países. Todo o mundo é país.
Fabiano Barroso
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