Gravar
seu nome, seu amor, uma data, na parede de um prédio, esse “vandalismo”
não se explica pelo puro desejo de destruição. Aí,
vejo sobretudo o instinto de sobrevivência de todos aqueles que
não podem erguer pirâmides e catedrais para deixar seu nome
para a posterioridade...
Georges Brassaï, Graffiti
O Graffiti
esteve presente na humanidade desde seus primórdios, nas cavernas,
em forma de pinturas rupestres, e principalmente depois do advento da
escrita, nos muros de diversas cidades e, a posteriori, nas revistas surrealistas.
A partir de 1920, o graffiti se firmou como uma importante referência
na arte moderna, principalmente na pintura e também e na fotografia
(Heinz Hajek-Halke, Brassaï, Aaron Siskind, Geraldo de Barros, Kikuji
Kawada, Meatyard, Stankowski, Gutman, Bischof, Levitt...). Na arte contemporânea
o graffiti tampouco se tornou uma exceção à regra,
se firmando de vez como uma ‘memória latente’, ou através
de apropriações diretas por parte de artistas como: David
Smith, Twombly, Tàpies, Frank Stella, Basquiat, Haring, Wajnarowicz,
Borofsky, Beuys, Merz, Jacque Lerner, Cildo Meireles, Garaicoa, Vallauri,
Jake & Dinos Chapman e outros).
No entanto é necessário salientar que nesse ensaio a ênfase
será dada a um lado menos conhecido da história do graffiti:
sua inserção no universo da literatura. Um dos primeiros
textos que contém uma clara alusão a um grafite se encontra
no tomo trinta e cinco da Historia Naturalis de Plínio1. No livro,
ele conta a história da filha de um oleiro de Sícion, chamado
Dibutades [318], apaixonada por um jovem que um dia tem de partir para
uma longa viagem. Na cena da despedida, onde os dois amantes estão
num quarto iluminado por um fogo (ou lâmpada) que projeta na parede
a sombra do casal, a moça traça com carvão apenas
o contorno da sombra do jovem amado, fixando para o tempo remoto, a imagem
do ser ausente.
A cidade: o autêntico chão sagrado
da flânerie (...) Inscrições nas paredes. Grandes
injúrias contra os críticos franceses e a França
(...) Utopias.
Bruxelas, capital do mundo. Paris, a província. 2
A grande náusea que os cartazes me comunicam.3
Baudelaire, nestes dois momentos distintos de sua escrita, revela o olhar
perspicaz do flâneur que não deixa passar despercebidos os
fragmentos que compõem a memória visual de um particular
trajeto urbano. No projeto para um livro intitulado Pobre Bélgica,
o poeta se irritava com as ríspidas palavras inscritas contra os
críticos franceses, como ele, nas paredes de Bruxelas. Já
em seu Meu coração a nu (Diário íntimo) ele
se mostra avesso às mensagens contidas nos cartazes afixados (provavelmente)
nos muros de Paris. Baudelaire, portanto, preconiza este interesse da
modernidade pelos grafismos urbanos.
As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente
inquieto, eternamente agitado, que entre os muros dos prédios,
vive, experimenta, reconhece e inventa tanto quanto os indivíduos
ao abrigo de suas quatro paredes. Para este ser coletivo, as tabuletas
das firmas, brilhantes e esmal tadas, constituem decoração
visual tão boa ou melhor que o quadro a óleo no salão
burguês; os muros com défence d'afficher (proibido colocar
cartazes) são sua escrivaninha, as bancas de jornal, suas bibliotecas,
as caixas de correspondência, seus bronzes, os bancos, seus móveis
do quarto de dormir, e o terraço do café, a sacada de onde
observa o ambiente. 4
Muros. De admirar a disciplina a que estão
sujeitos nesta cidade. Os melhores no centro usam libré e estão
a soldo da classe dominante. Estão cobertos de desenhos berrantes
e se dedicaram, centenas de vezes, em toda sua extensão ao mais
novo anis, ao “Chocolat Menier” ou a Dolores del Rio. Nos
bairros mais pobres estão mobilizados politicamente e dispõem
suas espaçosas letras vermelhas como precursoras de guardas vermelhas
em frente de estaleiros e arsenais. 5
Walter Benjamin ao caminhar pela cidade, o “autêntico chão
sagrado da flânerie”, observa os grafites urbanos, essas garatujas
que se multiplicam livremente nos muros. Muros, por sua vez, são
a pele da cidade que entra em contato com os homens. Nada mais natural
então que essa pele ostente suas inevitáveis cicatrizes
e tatuagens. Quando muros se revestem de assepsia, mais se assemelham
a monumentos intocáveis, como se estivessem falsamente velados
pela autoridade do proibir, inutilmente exibido em letras garrafais.
Esse suporte dos grafites já possui essa característica
dos monumentos, de ilustrar um certo poder instaurado. Cabe aqui o frutuoso
comentário de Georges Bataille acerca dos monumentos. Em seu Dicionário
Crítico, ele defende a tese de que os monumentos são os
verdadeiros senhores do povo, que eles inspiram o “bom comportamento
social e até, freqüentemente, um verdadeiro temor” 6.
Robert Musil, curiosamente, também chega a essa conclusão
ao escrever que: “(...) Se as pessoas não tivessem o espírito
cego para os monumentos e fossem capazes de perceber o que ocorre ali
no alto, haveriam de sentir, ao passar por eles, o mesmo pavor que sentem
ao passar pelos muros de um manicômio (...)” 7.
Na Mesopotâmia, berço da escrita, temos um registro raro
da obrigatoriedade dos governantes perante esse aspecto apaziguador de
forças dos monumentos, que precisam se erguer às alturas
para alcançar Deus, provocando com isso, a vertigem dos homens.
Lá, como nos mostra Jack Goody: “Os reis eram levados a consciência
de que o seu dever residia na construção de ‘santuários
maiores e mais sumptuosamente decorados com torres do templo mais altas
(...) uma expressão de ação de graças bem
como uma garantia de sucessos futuros’ ” 8. Os monumentos
são colocados no alto e, mesmo que em muitos casos sejam frios
e sem vida, estabelecem com o homem, em posição inferior,
uma atitude que Bachelard chama de “contemplação monárquica”.
O que se situa no alto é soberano e exerce domínio.
Gilbert Durand, em sua tese, As Estruturas Antropológicas do Imaginário,
cita acertadamente Mircea Eliade, que escrevera que “o alto é
uma categoria inacessível ao homem, como tal pertence por direito
aos seres sobre-humanos”. Para Durand esse é um fato fundamental,
já que explica “o processo religioso de gigantização
da divindade”. Durand acrescenta ainda, em tom irônico, que
“esse gigantismo atinge não só o nosso deus nacional
Gargan, como também os nossos ‘grandes’ homens políticos
cujas imagens são gigantificadas como era a de Cristo na iconografia
bizantina ou a de Atena Criselefantina” 9. Não seria esse
o motivo que faz com que os pichadores busquem se situar nas alturas,
para rivalizar o poder soberano, equiparando-se a ele? Seria esse o estopim
que faz com que os pichadores em seu devir, ao pé da letra (segundo
seu dialeto dominante)10, “detonem” um monumento, “moam”
um muro? Nessa utilização metafórica, a cidade-objeto,
suporte de suas investidas, passa a pertencer à alguns homens,
secretamente. A cidade como monumento exterioriza seu sintoma de déspota
por meio de nomes secretos, invariavelmente mal interpretados pela lógica
da estética imperiosa, da escrita oficial. Dentro de um padrão
estético bem definido, essas letras, que pertencem a um alfabeto
estilizado, escapam ao entendimento dos não iniciados, entre as
rachaduras das paredes da metrópole, e não só para
abalar os pilares de nossa sociedade autoritária, reduzindo-os
literalmente a pó. Ao assumirem essas nomenclaturas, do discurso
oficial moralizante que a sociedade lhes impele, os pichadores negam a
digressão dos mesmos discursos sadicamente, no sentido que emprega
Blanchot: “o centro do mundo sádico é a existência
da soberania afirmando-se por uma imensa negação”11.
Eles criam sua própria idiossincrasia através de analogias
que tornam suas letras “atropeladas”, seus nomes cifrados,
sinônimos de um inimigo devorador, como o espelho que, conforme
sua natureza, nos devolve as imagens estranhamente deformadas, nos devolve
as imagens imersas em opacidade, digeridas por um espírito antropofágico
que assimila a magia do ser devorado segundo seu próprio ritual.
Para ocuparem a cidade, os pichadores, em seu rito, preferem o centro:
assimilam a força do maior ícone dos monumentos (o principal
alvo dos olhares de todos os transeuntes). Ironicamente, mesmo dentro
de suas destruições simbólicas, eles parecem proferir
os ensinamentos de Le Corbusier, para quem: “O centro deve ser modificado
sobre si mesmo. Ele se esfacela e se reconstrói no curso dos séculos,
como o homem troca de pele todos os anos sete anos e a árvore de
folhas todos os anos...” 12.
Começou um tempo diferente, mais secreto, mais belo e ameaçador
a uma só vez. Descuidando-se do emprego, a qualquer momento você
saía com a esperança de surpreende-la, escolheu para os
seus desenhos essas ruas que podia percorrer em um único rápido
itinerário; voltou de madrugada, ao anoitecer, às três
da manhã. Foi um tempo de contradição insuportável,
a decepção de encontrar um novo desenho dela junto a alguns
dos seus e a rua vazia, e a de não encontrar nada e sentir a rua
ainda mais vazia 13.
No conto de Julio Cortázar intitulado Grafitti, escrito para Antoni
Tápies (artista espanhol cuja obra se inspira, em grande parte,
nos inóspitos ambientes e grafismos urbanos), um casal dialoga
através de desenhos elaborados com giz sobre os muros da cidade.
Esses fragmentos revelam, de forma difusa, os itinerários dos dois,
que desafiam a polícia em uma fuga labiríntica, poética
e pictórica. Sem motivos políticos, os desenhos se completam,
os contornos são preenchidos com cores, as formas imaginárias
são tão lúdicas que é como se o leitor (na
fuga da leitura) pudesse desenhar as infinitas feições do
acaso, juntamente com os personagens.
Os desenhos dos protagonistas nascem de uma íntima necessidade
de consolo, que só consegue exprimir seu labor coletivamente, e
os muros nesse caso são a morada do homem, indivíduo não
dissociável da coletividade. Nesse contexto, as paredes estão
cobertas de dádivas ao espírito da mutualidade, de inscrições
de formas abstratas, isto é, que preservam seus amplos significados,
conforme mira o sentido da secreta lembrança do homem. Temos nesse
ponto uma procura às avessas, as imagens se tornam presságios
de novas imagens, elas são sugeridas e não apontadas. Se
observarmos bem, ao longo da história, sobretudo na perspectiva
do tecnólogo André Leroy-Gourhan: “temos agora a certeza
de que o grafismo começa não por uma representação
inocente do real, mas sim do abstrato” 14. |

Graffiti parisiense
Foto Pedro Portella |