Os anos 60 foram marcados por uma intensa efervescência política e cultural em todo planeta. Movimentos juvenis surgem em vários cantos do mundo questionando criticamente as guerras imperialistas, o totalitarismo, a massificação da sociedade industrial, e os tabus culturais e morais. Uma nova geração passa a acreditar que as soluções para as dificuldades do futuro não são absolutamente técnicas, mas também políticas e passa a propor mudanças sociais e culturais na busca de soluções alternativas frente às contradições da modernidade.
Em Maio de 1968, estudantes universitários e secundaristas reivindicam em Paris a reformulação nos currículos e métodos de ensino. Criticavam o autoritarismo e a política das nações dominantes e as conseqüências da ascensão do capitalismo na França e no resto do mundo. Os estudantes ocupam as ruas e universidades de Paris e outras cidades em confrontos que acabam desencadeando uma espécie de guerrilha urbana, com barricadas, cartazes e panfletos 4.
Nas paredes da Sorbonne os grafites cobrem os muros e atacam os monumentos protegidos por avisos de defense d’afficher (proibido colar cartazes). Nas universidades, poemas e reflexões filosóficas contra o estabilishment são pintadas com piche e cartazes. No mês seguinte, aproveitando a época de férias, as paredes da faculdade são repintadas. A breve duração e a intensidade do movimento tem repercussão internacional. A revolução de comportamento espalha-se pelo mundo repercutindo inclusive no Brasil.
Reproduzimos aqui algumas destas inscrições francesas, coletadas por Julien Besançon e publicadas no Brasil por Cristina Fonseca no livro Poesia do Acaso 5: “A imaginação no poder”; “Viver sem horas mortas, gozar sem entraves”; “A mercadoria, nós a queimaremos”; “A felicidade é o poder estudantil”; “A humanidade só será feliz, no dia em que o último burocrata, for enforcado nas tripas do último capitalista”; “É estritamente proibido proibir”; “Você está sendo intoxicado: rádio, televisão, jornal, mentira”; “Corra camarada, o velho mundo quer te alcançar”; “Sejamos realistas. Exijamos o impossível” e “Eu não gosto de escrever sobre os muros”.
Vários movimentos juvenis se manifestam nesta época na Polônia, Alemanha, Itália, Bélgica, Argentina, Chile, México, Espanha, Japão e em diversos outros cantos do mundo. Lutas estudantis antiautoritárias e antimperialistas culminam em violentas batalhas de rua. Na Tchecoslováquia, em 1968, jovens fazem coquetéis molotov e atiram nos tanques russos que invadiam o país, pintavam nas paredes de Praga frases como “Lenin, desperta! Eles enlouqueceram” 6.
No Brasil, a juventude, a exemplo da França e dos outros países, também se manifesta contra a ditadura militar. Frases políticas ocupam as paredes das principais cidades. Arte, cultura e grafite: anos 60 e 70
No campo das artes plásticas surgem diversas tendências artísticas que questionam a sociedade industrial e de consumo, a propaganda e a cultura de massa. Esses movimentos trazem à tona a questão da arte, seu papel social e sua relação com o mercado e com os espaços institucionais que ela ocupa, como museus e galerias. A pintura neste período rompe com a estética abstrata predominante nos anos cinquenta e aponta para uma nova tendência figurativa, com a reintrodução da representação icônica. O Novo Realismo que surge na França propõe um olhar sobre a natureza moderna: a cidade, a fábrica, a cultura de massa, a ciência e a técnica 7.
Sob o impacto da cultura popular urbana e da comunicação de massa, nasce por volta de 1957 em Londres, a Pop Art, corrente que se consolida nos anos sessenta nos Estado Unidos a partir das experiências de apropriação das imagens da indústria cultural, da sociedade de consumo e do uso de novas tecnologias 8.
É também neste período e nos anos setenta que intensificam-se as manifestações públicas (happenings) integrando a combinação de várias linguagens artísticas: pintura, escultura, teatro, dança, poesia, música instrumental, rituais mágicos, com a liberação sexual e o protesto político, buscando uma integração entre arte e vida 9.
No campo da poesia o movimento beatnik, reunindo principalmente poetas e escritores nos EUA, já propunha desde a década de cinquenta uma rejeição aos moldes da poesia acadêmica com o objetivo de questionar as normas fixas entre poesia e não poesia e recuperar a tradição oral improvisando frases, fundindo jazz, corpo, mente e sentidos, rompendo os limites entre arte e experiência diária e aguçando a consciência política, estética e religiosa 10. Estes artistas tornam-se referência para diversos movimentos culturais que surgem posteriormente, como no caso do rap que irá mais tarde fundir fala improvisada e batida eletrônica 11.
Neste contexto, os grafites urbanos que surgem em meados dos anos 70 tomam uma nova dimensão, constituindo um poderoso e criativo discurso visual juvenil, ancorado nas questões colocadas pelos movimentos artísticos das décadas anteriores, propondo novas formas de relacionar, arte, política e questões sociais.
Frases poéticas ou políticas, nomes, pseudônimos e endereços, além de desenhos e grafismos denunciam a necessidade da criação artística autônoma no espaço urbano, legitimando a rua como espaço vital para a liberdade e a expressão. Ao ocupar as ruas os grafites colocam em questão o acesso à cultura e o mercado de arte que aprisiona as obras em museus e galerias.
Assim como nos happenings, a escrita nos muros se transforma em espetáculo público, em ritual, envolvendo música, dança, performance e protesto, no caso do grafite inserido no movimento hip hop 12.
Década de 80, Graffiti Art: rumo às galerias
Em Nova Iorque o panorama das artes plásticas nos anos oitenta foi marcado pelo retorno de vários artistas à prática da pintura e pelo reestabelecimento do mercado da arte depois das aventuras neo-conceituais dos anos anteriores.
O neo-expressionismo alemão e a bad-painting vêm assinalar ainda mais este regresso à pintura, na espontaneidade do gesto e aos grandes formatos das telas. A avidez de colecionadores e marchands e um crescente processo de mundialização da arte norte-americana provoca o interesse mundial por novas linguagens que sintetizassem várias sensibilidades artísticas e atitudes sócio-políticas. Aos poucos o grafite ganha força e espaço na mídia e iniciativas são tomadas com o objetivo de levar a linguagem das ruas para os ateliês.
O East Village, pólo aglutinador da vanguarda artística e da boêmia nova-iorquina, foi de fundamental importância nesse contexto, na medida em que lançou no mercado de arte vários artistas cuja origem era o grafite de rua, promovendo a inserção desta manifestação no mercado de arte 13. Para absorver esta produção foi criada uma rede de galerias em 1981. A primeira delas, a Fun Gallery, fundia artes plásticas, música e dança e impulsionou a carreira de artistas como Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Kenny Scharf, James Brown, Ronnie Cutrone e outros grafiteiros que voltam suas produções para o mercado de arte e tornam-se artistas internacionalmente conhecidos, ganhando fama e projeção internacional 14.
Os anos 60 e 70 passaram, e aprendemos com eles novas formas de entender o mundo e e agir sobre ele. Trouxeram novas formas de arte, de comunicação, de configuração do espaço urbano e um novo ator social: o jovem. Os grafites permaneceram não mais políticos e nem tão bem cotados nas galerias, mas sua estética permanece imposta claramente na moda e nos meios de comunicação dos anos 80 e 90.
Talvez o grafite seja uma das formas de expressões do nosso tempo que melhor sintetize a arte, a juventude e a rua.
4 T. Scaff, Graffiti - II Semana Cultural da FUMEC, 1989, p. 2. datilo.
5 C. Fonseca, A poesia do acaso, s. d., p. 18 e ss.
6 O. C. F. Matos, As Barricadas do desejo, 1989, p. 20 e ss.
7 M. A. Ribeiro, As Neovanguardas: Belo Horizonte - anos 60, 1984, p. 36.
8 Ibidem p.41 a 43.
9 Ibidem p.42 a 47.
10 Ibidem p. 35.
11 M. do C. Veneroso, Caligrafias e escrituras: diálogo e intertexto no processo escritural nas artes no século XX, 2000, p. 208 e ss. datilo.
12 A. B. oLIVA, American Graffiti, 1998, p. 109-110.
13 M. do C. Veneroso, op. cit., p. 242.
14 Ibidem, p. 245. |
Cartaz de Paris, 1968.
‘Abaixo a ditadura’, foto do jornal Manchete publicada no livro ‘68: a paixão de uma utopia’ de Daniel A. R. Filho e Pedro de Moraes.
“Lute”, inscrição em giz deixada no metrô de Berlim.
Foto: Federico Maddalozzo
Mensagem anônima numa nota de R$ 10,00.
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