As décadas de 20 e 30 apresentaram constante crescimento na qualidade e na quantidade dentre os comics americanos. O início da década de 30 assistiu a uma explosão criativa talvez jamais repetida em toda a história da HQ. O tema deixou de ser somente o humor; os autores, talvez por exigência dos syndicates que os agenciavam, passaram a criar histórias que se prolongavam em capítulos, como numa novela: cada nova tira ou página era a continuação das anteriores. Tudo recheado por mundos fantásticos, personagens atléticos e mocinhas sedutoras. O herói estava definitivamente criado para os quadrinhos: surgem os futuristas Buck Rogers (1929), de Dick Calkins, e Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, os heróis das selvas Tarzan (1928), de Hal Foster, Jim das Selvas (1934), também de Raymond, e Fantasma (1936), de Lee Falk em parceria com Ray Moore, o elegante mágico Mandrake (1934), escrito por Falk e desenhado por Phil Davis, e o Principe Valente (1934), também de Foster.
É importante lembrar que a crise econômica iniciada em 1929 nos EUA gerou uma grande perda da auto-estima no cidadão americano. Os heróis criados a partir daí eram claramente uma tentativa de reerguer a moral abalada com a crise. O leitor se enxergava na pele daqueles heróis, para quem a vida era uma grande aventura com um final feliz: o vilão era liquidado e a mocinha, conquistada. Vilão e mocinha, a propósito, eram personagens bastante estereotipados nos comics americanos. O vilão era invariavelmente um estrangeiro - às vezes até extraterreno, como o maligno Ming, imperador de traços orientais derrotado por Flash Gordon. Já a mocinha era indefesa e incapaz de resolver seus constantes problemas. O problema dela era quase sempre o mesmo: como se livrar do vilão que queria se casar com ela.
Seguindo tais características, em 1938 foi publicado pela primeira vez um personagem de imediato e enorme sucesso: o Superman, de Joe Shuster e Jerry Siegel. Vindo de outro planeta, e adotado quando bebê por uma família interiorana, Clark Kent, dono de diversos super-poderes, se tornaria o Superman, destinado a salvar pessoas inocentes do mal e dos criminosos. Não bastasse o fato de que era o maior de todos os heróis - um super herói - tal personagem trouxe uma importante contribuição para a evolução das HQ: pela primeira vez desde os álbuns europeus de Töpffer e Wilhelm Busch, o autor reutilizava o formato de história longa. É que o Superman, que saía na revista mensal Action Comics, publicada ainda hoje pela DC, trazia histórias de oito páginas, diferentemente das tiras diárias e páginas dominicais a que o público estava acostumado a ler nos jornais. Tal formato permitia a utilização de desenhos grandes, ocupando quase toda a página, além de dar uma agilidade maior à narrativa. Além disso, o fato de o personagem sobrevoar a cidade e aterrisar em arranha-céus dará nova dinâmica aos desenhos. Siegel, o desenhista, sabiamente desenhava ângulos diferentes de tudo o que o mundo dos quadrinhos estava habituado.
O público aprovaria o novo formato. Pouco a pouco, foram surgindo personagens e histórias no formato de histórias longas. A principal delas seria The Spirit (1940), de Will Eisner, que trazia aventuras semanais de sete páginas. Eisner inovaria bastante a maneira de escrever e desenhar uma HQ, achatando ou alongando os quadros como lhe convinha e apresentando cada história com um título desenhado de forma diferente. Além disso, seus enquadramentos fugiam da clássica ‘cena de teatro’, em que os personagens pareciam estar num palco representando. Os ângulos eram distorcidos e as ‘tomadas de cena’ variavam com uma incrível constância a cada quadro. As histórias de Spirit, que deveriam ser sátiras de personagens super-heróicos como o próprio Superman, se transformariam em algo maior do que isso, mesclando harmoniosamente aventura policial, ficção científica, humor, crítica social e até clássicos da literatura. Tudo num estilo de desenho muito caricatural, com personagens beirando o humor e abusando das sombras e do alto-contraste. Com o novo estilo, Eisner se tornaria uma das maiores referências para os quadrinistas em todo o mundo, influenciando de forma contundente inclusive o cinema dos anos 40-50.
Apesar da grande força das tiras e páginas de jornal, as revistas em quadrinhos já eram bastante populares na década de 40. Com a entrada dos americanos na Segunda Guerra, em 1942, aqueles velhos estereótipos de herói, vilão e mocinha das HQ americanas mudam um pouco de rumo. Surgem heróis bélicos, como o Capitão América, de Joe Simon e Jack Kirby. Os inimigos passam a ser nazistas e japoneses, retratados de forma ofensiva e muitas vezes racista. Com a grande mobilização para promover a entrada americana na guerra, os quadrinhos, principalmente os de super-heróis, já bastante difundidos, se transformam em panfletos importantes neste processo. Desde então, os comics são usados de forma eficaz para incentivar e ‘explicar’ ao grande público uma posição política ou ideológica dos Estados Unidos: seja para os próprios americanos, seja para o resto do mundo. Assim, por exemplo, os quadrinhos de Walt Disney, como o Pato Donald e o camundongo Mickey Mouse, serviram, durante as décadas de 50 e 60, para ‘justificar’ veladamente as ações políticas e militares dos americanos na Ásia e na América do Sul contra o avanço do comunismo nestes continentes. Eram os quadrinhos sendo usados em prol da ‘Guerra Fria’, que dividia o mundo em comunistas e capitalistas 4.
Tecnicamente, os quadrinhos americanos também sofreram mudanças. Já na metade da década de 40, após o término da guerra, as revistas eram muito populares, alcançando grandes vendagens. Diversos títulos mensais eram publicados - alguns com enorme sucesso. Bom exemplo é Detective Comics, a revista que em 1939 lançou a série Batman, criação de Bob Kane e depois imortalizada por outro autor, Jerry Robinson. A HQ se subdividia em diferentes formatos: aquele feito para os jornais, em tiras ou em páginas dominicais e que geralmente era uma história em continuação, e aquele feito para as revistas, de ação contínua e auto-conclusiva. Para o segundo formato, os autores geralmente se reuniam em estúdios de produção, já que o trabalho em conjunto gerava resultados mais rápidos. As histórias longas exigiam maiores cuidados e mais tempo de trabalho 5.
O trabalho em equipe se estabeleceu definitivamente no final dos anos 40, com o surgimento de diversas editoras que publicavam títulos de guerra, aventura, terror, policial e, principalmente, de super-heróis. Estes títulos eram totalmente produzidos pelos estúdios de desenhistas, através de uma verdadeira linha de montagem: um escrevia as histórias, outro desenhava os esboços a lápis, um terceiro fazia a arte final, outro colocava os textos nos balões, e assim por diante. A “linha de produção” persiste até hoje nos chamados quadrinhos comerciais, como os de super-heróis. Se o método beneficiou a proliferação das revistas em quadrinhos por todo o mundo, acabaria gerando um problema: a queda na qualidade autoral das histórias. Até o momento em que as HQ eram obra de uma só pessoa, ou no máximo duas, sobressaíam quase sempre o estilo e a criatividade singulares de cada autor. Com o desenvolvimento do trabalho por equipe, dezenas de novas páginas eram produzidas diariamente por diversas mãos que trabalhavam juntas. Assim, a exclusividade de um estilo se perdia. O próprio jeito de desenhar o corpo humano dos personagens passou a ser uniformizado, para que se facilitasse sua reprodução por autores diferentes. O quadrinho perdia assim seu valor autoral, e passava a ter um valor mais comercial. A lógica é simples: os autores de um personagem passam, se aposentam. Mas o personagem persiste.
Nos jornais, por outro lado, tiras e páginas dominicais continuaram a apresentar as mesmas características do início do século: os autores, salvo exceções, produzindo suas tiras e páginas sozinhos. Alex Raymond, por exemplo, criava tiras diárias e páginas semanais de diversos personagens. É verdade que para desenhar Flash Gordon, Agente X9 (abandonado já em 1935, um ano após ter sido criado) e Jim das Selvas, Raymond contava com assistentes que ajudavam-no, e às vezes até o substituíam. Mas era uma relação direta entre o autor e seu assistente. Este trabalhava mais como um aprendiz do que um mero repetidor dos traços de seu mestre. Após a morte de Raymond, em 1956, seu assistente Jonh Prentice o substituiu com as tiras diárias de Nick Holmes, criado em 1946. Prentice renovou e criou grandes aventuras do personagem, que não perdeu suas características.
A década de 50 trouxe boas novidades em tiras e páginas nos jornais americanos - e posteriormente de todo o mundo. As principais foram Charlie Brown (Peanuts), de Charles M. Schulz, e Recruta Zero, de Mort Walker. Ambas surgiram em 1950 e alcançariam um nível de reconhecimento mundial jamais provado por qualquer outra história em quadrinhos até então. Estava se consolidando a era do merchandising nos comics. A imagem dos personagens de Peanuts foi explorada em desenhos animados, bonecos plásticos, roupas, utensílios domésticos, álbuns de figurinha, cartões de natal etc. Tudo sob o controle da United Features Syndicate, a agência de comics pela qual Schulz - morto em 2002 - era contratado. Desde então, a maioria dos personagens de quadrinhos americanos tem suas imagens usadas para vender produtos por todo o mundo. Alguns autores, porém, como Bill Watterson, criador de Calvin e Haroldo (1986), se recusaram a ceder os direitos de seus personagens ao merchandising. Watterson teve sérios problemas com isto, o que acabou por levá-lo a extinguir o personagem em 1996 6.

Calvin e Haroldo, de Bill Watterson
Já as revistas em quadrinhos dos anos 50 apresentavam poucas novidades e muitas repetições, já que estava definitivamente estabelecida a “linha de produção”: fórmula dos quadrinhos produzidos a custo baixo, em grande quantidade e publicados em tiragens muito altas. Assim, os leitores se viam repletos de opções diárias nas bancas, embora nem todas - ou quase nenhuma - fossem de qualidade. Títulos como Weird Science, Frontline Combat e Tales from the Cript faziam a cabeça dos jovens leitores americanos no período. Quase todos apresentavam histórias que tinham sete ou oito páginas e sempre nos gêneros terror, ficção científica, guerra e super-heróis. Estas histórias poderiam ser equiparadas aos trash movies do cinema atual: recheadas de sangue, mortes trágicas e desprovidas de final feliz. Mas nem tudo era lixo. Grandes autores americanos tomariam parte na produção desses quadrinhos, como Jack Davis, Wallace Wood, Harvey Kurtzman, que anos antes fizera parte dos estúdios de Will Eisner, e Steve Ditko, que pouco depois ajudaria a criar o famoso super-herói Homem Aranha. Grandes talentos da literatura fantástica, como Ray Bradbury, também tomavam parte nestas HQ, fazendo roteiros. Em 1956, o Senado americano, influenciado pelas idéias malucas de um sinistro psiquiatra chamado Dr. Frederick Wertham, aprovou uma lei que censurava situações de morte, sexo e sangue nas HQ. Dois anos antes, o Dr. Wertham havia publicado o livro Seduction of the Innocent (Sedução dos Inocentes), onde expunha os ‘efeitos nocivos’ que uma HQ poderia impor aos jovens, levando-os a ações corruptas e até ao suicídio. Após o decreto do Senado americano, cada HQ, antes de ser publicada, deveria ser aprovada pelo ‘código de ética para os quadrinhos’.
Com a nova lei, as editoras do gênero guerra, ficção científica, terror, erótico se viram obrigadas a mudar os rumos de suas publicações. Mudanças que trariam à tona dois fatos marcantes. Em primeiro lugar, a criação de um novo formato: os quadrinhos satíricos, encabeçados pela Mad, publicação que substituiu todas as antigas revistas da EC Comics, editora que tinha as melhores vendagens antes da lei. A Mad tinha grandes artistas, e apresentava sátiras cruéis de filmes, costumes e tradições americanas. Não era feita só de quadrinhos: trazia textos e ‘reportagens’ sarcásticas, além de charges e posters. Ao mesclar textos em meio aos quadrinhos, artifício criado pelo editor Bill Gaines, a revista parou de ser controlada pelo código de ética: afinal, o código valia somente para revistas em quadrinhos, e não para revistas de variedades, como era o caso da Mad. O formato Mad faria história, influenciando autores e publicações pelo mundo afora ao longo dos anos. A revista seria a vitrine para o trabalho de grandes artistas: Jack Davis, Bill Elder, Harvey Kurtzman, Wallace Wood, Sérgio Aragonés, Don Martin, Al Jaffee 8 (...)
4 O. Masotta, La historieta en el mundo moderno, 1991, p. 89 a 91.
5 Ibid., p. 78 a 84.
6 B. Watterson, 10 anos de Calvin & Haroldo. 1996, p. 84.
7 A. e E. Clark, op. cit. p. 72 a 75.
8 Ibid. |

Quadro de Príncipe Valente em seu ano de estréia (1936). Seu autor, Hal Foster, mantinha uma linha cronológica para a aventura: o personagem casa-se, tem filhos e envelhece. Misturando realidade histórica (fatos e costumes do mundo medieval) com fantasia (dragões, a Távola redonda e seus cavalheiros), a história primava pelo complexo cuidado gráfico de seu autor.
Príncipe Valente (Prince Valiant), de Harold Foster. De: Editora Brasil América S.A., 1990.

The Spirit (1940), de Will Eisner, sofre com o assédio feminino: retrato perfeito do anti-herói, Spirit não tinha super poderes, apenas senso de humor e ironia. Além disso, as histórias, semanais e com sete páginas cada, revolucionaram o formato da HQ americana durante a década de 40. A história durou até 1952.
The Spirit, de Will Eisner. De: Editora Abril Jovem S.A., 1990.
Capitão América, de Jack Kirby: precursor dos heróis patrióticos, o personagem apoiou o exército americano na II Guerra.
Capitão América (Captain America), de Stan Lee e Jack Kirby. De: Editora Brasil América, 1972

Edição da Mad americana. Publicada ainda hoje, a Mad passou incólume pelo código de etica americano simplesmente por não ter sido considerada uma revista de quadrinhos. Acabou se tornando a principal publicação
da editora EC Comics.
Capa da revista MAD, 1978 – publicada nos Estados Unidos pela E.C. Publications, Inc. |