Comics - os quadrinhos americanos |
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| A história
em quadrinhos (HQ), arte que une imagens em seqüência, acrescidas
ou não de textos, e que dá ao leitor a ilusão de movimento,
não tem data exata de nascimento. Não foi ‘inventada’
de uma hora para outra como, por exemplo, o cinema. Tampouco foi ‘descoberta’
por alguém. A HQ passou por um longo processo não-linear através
da história para vir a se tornar aquilo que, a partir do início
do século XX, ganharia a denominação de comics, nos
EUA, bande desinée, na França, fumetti, na Itália,
mangá no Japão, e por aí vai. Se partirmos da sua essência - imagens desenhadas em seqüência com o intuito de contar uma história - teremos exemplos primitivos de quadrinhos nas pinturas das cavernas feitas na pré-história, nos hieróglifos do antigo Egito, no império asteca, nas iluminuras da baixa Idade Média européia, nas pinturas renascentistas do século XV... No entanto, o ano de 1895 e a charge Yellow Kid , do americano Richard Outcault, são aceitos pela maioria dos estudiosos como o marco inicial da HQ. Para eles, Outcault é o primeiro autor a usar balões, e Yellow Kid, o primeiro personagem fixo da HQ. Vivendo em um beco pobre da cidade de New York, o “garoto amarelo” fez sucesso justamente por se identificar com o público de classe baixa norte-americano. Inicialmente, as falas do garoto vinham escritas em sua camisola. Depois, passaram a ser colocadas em balões. O mérito de Outcault, porém, gera polêmica. Naquele momento, vários álbuns e personagens já haviam sido lançados na Europa e até no Brasil, como veremos nos capítulos seguintes. Os exemplos do suíço Rudolph Töppfer, do alemão Wilhelm Busch e do brasileiro Ângelo Agostini não podem ser ignorados como momentos cruciais na evolução mundial dos quadrinhos, num processo de grande ebulição durante toda a segunda metade do século XIX. Talvez a grande diferença de Yellow Kid em relação aos outros quadrinhos, é que ele vinha publicado diariamente em jornais. Alcançava um grande e diferenciado público todos os dias. Já os álbuns como os de Töppfer e Busch eram quadrinhos em sua essência, mas não eram grandes fenômenos de comunicação de massa como Yellow Kid e outras tiras publicadas naquela época nos jornais norte-americanos 1. Como todos os jornais do mundo no final do século XIX, os americanos eram ricamente compostos com ilustrações. As fotografias custavam ainda muito caro e as ilustrações, que vi-nham acompanhadas de legenda e eram chamadas de charges, deram assim o passo inicial para popularizar a HQ. O próprio Yellow Kid era uma charge. Tais charges, de tão populares, ganharam importância no jornal e passaram a ocupar cadernos inteiros. Pouco a pouco, se desdobraram em uma variação com mais quadros, que passou a ser chamada de comic strip (em bom português: “tirinhas”). As comic strips eram quase sempre um pequeno ‘teatrinho’ desenhado. A ação passava-se entre dois personagens (não raro, crianças), e o gênero invariavelmente era a comédia de costumes. Naqueles tempos, não se desenhavam muitos cenários, closes ou onomatopéias. Além disso, não eram todos os autores que se arriscavam a colocar balões em seus quadrinhos. Com a entrada no século XX, o fenômeno das tiras tomou corpo e evoluiu rapidamente nos jornais americanos. Os dois principais jornais americanos da época, o New York World e o New York Journal, em uma batalha comercial que se tornou célebre, tiveram profunda influência na evolução das tiras de jornal naquele momento. Bastou que o New York World se arriscasse a publicar um suplemento aos domingos, contendo tiras e pranchas de quadrinhos, para que o rival New York Journal também criasse o seu. A cada domingo, novos autores e personagens iam surgindo, e aqueles de qualidade duvidosa acabavam sendo rapidamente deixados de lado. Surgiriam assim grandes personagens, como Os Sobrinhos do Capitão (1897), de Rudolph Dirks, Mutt & Jeff (1908), de Bud Fisher, e Pafúncio (1912), de George McMannus. Tais histórias se tornariam conhecidas por todos. Com o passar das décadas, alcançarão o posto de grandes obras primas da HQ mundial. Os Sobrinhos do Capitão era a história de duas crianças pestinhas vivendo numa hipotética ilha caribenha, junto a seus familiares e outros personagens. Dentre os familiares, destacava-se a figura do Capitão, gordo bonachão e que vivia às voltas com a gota - doença etílica que, por vezes atacava, suas pernas. Já Mutt & Jeff era uma tira de situações urbanas, passada nas ruas de uma grande cidade. Os protagonistas que davam nome ao título eram dois simplórios vagabundos, amantes da vida fácil e das apostas. Como se vê, nos primeiros anos a temática dos quadrinhos americanos envolvia essencialmente personagens simples, atingindo consequentemente as classes mais baixas da população. Quando a população americana começou a enriquecer, os personagens também trilharam o mesmo caminho. Em Mutt & Jeff, por exemplo, o personagem Mutt, conhecido por suas bebedeiras, casa-se e abandona o álcool 2. A briga editorial entre o dono do NY World, Joseph Pulitzer - que mais tarde emprestaria seu nome ao prêmio jornalístico - e o dono do NY Journal, William Randolph Hearst - que, por sua vez, serviria de modelo para o diretor de cinema Orson Welles criar a sua obra-prima em 1939, Cidadão Kane - gerou em 1909 uma batalha judicial pelos direitos de Katzenjammer Kids, publicado desde 1897 no Journal. Seu autor, Rudolph Dirks, recebera proposta melhor de Pulitzer e se mudara para o World, levando junto seus famosos personagens. Afrontado, Hearst acionou a justiça pedindo os direitos pela HQ. Resultado: a tira passou a ser desenhada simultaneamente por dois desenhistas diferentes, um em cada jornal! Dirks foi obrigado, porém, a mudar o nome da história, que passou a se chamar Hans and Fritz - e, mais tarde, The Captain And the Kids 3. Já o Journal contratou Harold Knerr para continuar a desenhar a história - e que acabaria considerado por muitos um autor mais competente do que o próprio Dirks. Para que não se repetissem situações como esta, os jornais criaram os sindycates (agências), organizações que detinham os direitos das histórias que publicavam. Desta forma, se um autor, por exemplo, desistisse de desenhar determinada história, ou morresse, o sindycate poderia contratar outro para desenhar a mesma tira em seu lugar. Tal sistema se mostrou eficaz não só na hora de resolver problemas trabalhistas como aquele, mas também para distribuir as tiras para jornais diferentes. Assim, rapidamente as mais famosas tiras dos EUA passaram a ser publicadas não só nos maiores jornais de New York, mas também em todo o território, e também fora dele. A exportação das tiras e páginas de comics para o todo o mundo estava apenas começando. Já na década de 1910, os diversos sindycates pertencentes aos principais jornais do país agenciavam e distribuíam as comics strips para todos os Estados Unidos. Os artistas eram as grandes estrelas dos jornais, recebiam bons salários e eram disputados por outros sindycates. Todos os dias, os jornais publicavam uma página inteira com tiras inéditas de diversos personagens. Apesar de serem lidas por todos, pais e filhos, homens e mulheres, as tiras eram consideradas infantis naquela época. Aos domingos, a ‘moda’ iniciada pelos jornais de New York, de publicar um caderno inteiro contendo não só tiras, mas também belas páginas (muitas delas em cores) com os personagens de maior sucesso, havia pegado definitivamente. Estas páginas inteiras, ou pranchas, eram muito apreciadas pelos autores, que assim podiam fugir das limitações de espaço impostas pelas tirinhas, invariavelmente uma sequência de três ou quatro quadros. Assim, artistas como Winsor McKay, autor do maravilhoso Little Nemo (1905), podiam criar verdadeiras obras de arte aos domingos. Encorajados pelo espaço físico que tinham para desenhar, passaram a trabalhar mais os cenários e os ambientes por onde passeavam os personagens. George Herriman, por exemplo, o excêntrico autor da obra-prima Krazy Kat (1911), chegou ao absurdo de jamais repetir um mesmo cenário, desenhando a cada quadro uma paisagem surreal e diversa da anterior, por onde transitavam seus geniais e insólitos personagens. |
![]() Primeira sequência de Yellow Kid (1895), de Richard Outcault. O nome Yellow Kid (menino amarelo) não foi obra do autor, mas do acaso, devido a uma falha na impressão que resultou no amarelo da camisola do personagem. |
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