Entre o
século VIII a.C. e o III d.C., os antigos romanos passaram
da monarquia dos primeiros reis para a república. Depois de construir
um enorme império, os romanos irão decair com o advento
do cristianismo e as invasões bárbaras. Os romanos distinguiram-se
pela grandiosidade de suas obras de engenharia e arquitetura: estradas,
aquedutos, vilas e anfiteatros.
De mentalidade prática e funcional, relegaram o uso de estátuas
de divindades aos locais de culto. Herdeiros da tradição pictórica
do povo Etrusco, nas representações exaltavam o elemento humano,
fugindo assim do aspecto mitológico, característico das obras
gregas.
Com a realização de retratos, um gênero de pintura já empregado
antes pelos egípcios, nobres e ricos romanos exerciam o direito de reproduzir
a própria imagem e a de seus antepassados. O emprego público
da própria imagem não era prerrogativa de todos. O ius imaginum,
o privilégio de exibir uma efígie de cera dos próprios
ancestrais no átrio da casa, era concedido apenas às famílias
nobres 43.
O simulacro passa a ser empregado então como poderoso instrumento de
propaganda política e militar. O imperador Augusto (27 a.C. – 14
d. C.), por exemplo, encomendava retratos diferentes conforme a finalidade:
uma estátua, em que era representado de forma idealizada e numa pose
solene, evocava sua presença no fórum, centro político
e econômico da cidade. Já no ambiente doméstico das vilas
e palácios, o Imperador era retratado de forma realista e despojada.
Impresso nos sestércios, as moedas da época, o perfil dos imperadores
romanos circulava por todo o Império. Suas vitórias
eram celebradas com baixos-relevos em colunas monumentais e arcos de triunfo.
A mais célebre destas obras é a Coluna Trajana.
Inaugurada em 113 a.C., a obra é constituída por uma série
de imagens que narram a guerra contra os Dácios. As cênas são
arranjadas numa espiral com mais de 200 metros de desenvolvimento linear e
seguem uma hordem cronológica. Dispostas de maneira ordenada, as figuras
permitem uma leitura dos episódios, delimitados entre si por elementos
do cenário
como àrvores e construções.
A habilidade do autor e a riqueza no tratamento dos detalhes, fazem deste monumento
uma das mais extraordinárias obras da antigüidade, muitas vezes
apontada como um exemplo de proto-quadrinho. O artista, que alguns estudiosos
identificaram como o arquiteto Apolodoro de Damasco, soube lidar sobriamente
com esta obra tão comprometida com o poder, exaltando o aspecto histórico
do acontecimento e fugindo de heroísmos pessoais. A falta de bajulação
com a qual é retratado o Imperador (que aparece mais de 60 vezes), e
a dignidade com a qual foram representados os inimigos, levantaram a suspeita
de que os baixos-relevos possam ter sido realizados por um prisioneiro, que
ficou conhecido apenas como 'mestre das empreitadas de Trajano' 44.
Outros monumentos comemorativos, como obeliscos e arcos de triunfo, costumavam
ser levantados nos foros e no começo das estradas romanas. As imagens
realizadas nestes monumentos eram acompanhadas de legendas gravadas com letras
maiúsculas do alfabeto romano. Os caracteres eram embelezados com
serifas, pequenos traços colocados nas extremidades das letras. Por
tornar a leitura menos ‘áspera’, este tipo de caracter seria
empregado muito mais tarde nos livros impressos. Este
trecho que você esta
lendo, por exemplo, utiliza a fonte times new
roman, variação
moderna das letras de Roma. Entre os grafiteiros de hoje, a elaboração
de adereços como serifas e setas está à base do desenho
das letras. O wild style, leva ao estremo esta prática.
O mais significativo testemunho da produção de grafites nesta época
foi encontrado em Pompéia. Situada próxima ao vulcão Vesúvio,
no sul da Itália, a cidade foi submersa por uma erupção
em 79 d.C. Por baixo da lava, o dia a dia da cidade e de seus moradores surpreendidos
pela catástrofe, ficou ‘congelado’ até meados de
1800, quando começaram as primeiras escavações. O grande
número de grafites, mosaicos e pinturas parietais encontrados, constitui
um registro singular da intensa obra desenvolvida por ‘pintores artesãos’ ao
longo de quatro séculos de atividade. A diferença dos grafites
modernos, os murais eram realizadas principalmente no interior dos edifícios.
Na rua, os pompeianos gravaram inscrições muito parecidas com
as modernas pichações.
Havia duas espécies de pintores: os imaginarii, que realizavam as figuras
principais e as paisagens, e os parietarii, que complementavam a obra com motivos
decorativos 45. De maneira geral, as cópias eram extremamente comuns
no mundo romano: o valor de uma obra estava antes no sujeito retratado do que
na originalidade de seu autor, considerado, aqui também, antes um artesão
que um ‘artista’.
No interior das casas, o gosto pela pintura começou com a influência
que a cultura grega teve sobre a cidade até a conquista romana, em 80
a.C. Dos gregos, os pompeianos assimilaram modelos e mitos amplamente reproduzidos
nas pinturas. É evidente a predileção por personagens
como Teseu, representado com o Minotauro a seus pés, Perseu, o matador
da Medusa e Baco, presença obrigatória, junto ao seu séquito,
nesta cidade de comerciantes de vinho.
Os afrescos da Villa dei Misteri, empregado na iniciação ao culto
de Dionísio, estão entre as mais interessantes. Dispostas em
seqüência ao longo das paredes, as imagens ilustram episódios
da vida desta divinidade. O tema de cada painel corresponde a uma etapa da
iniciação.
Presentes em praticamente todas as paredes da cidade, as inscrições
são em sua maioria mensagens eleitorais, realizadas em letras maiúsculas
por pintores profissionais. As escritas eram feitas durante a noite com o auxílio
do dealbator, que estendia o fundo branco e do lanternarius, que segurava a
lâmpada e a escada. Junto a estas inscrições ‘oficiais’,
aparecem inscrições com mensagens de amor, declarações
e desenhos deixados pelos cidadãos da província. Algumas registram
um acontecimento: hic futui - XIX K Sep XIII K Sep (Aqui beijei em 14 e 20
de agosto); outras escondem trocadilhos: Floronius - benef ac miles - leg
VII hic - fuit neque – mulieres - scierunt nisi - paucae et – seserunt (Floronius, soldado de primeira classe da 7ª legião esteve aqui.
E as mulheres não ficaram sabendo, menos algumas, e estas a ele se deram).
Nesta frase a palavra seserunt pode também ser lida sex
erunt (aqui
fizera sexo) 46.
Nas tabernas e nas lojas, também ficaram gravadas listas de nomes e
números que podem ter representado tanto contagem de pontos de algum
jogo quanto o saldo dos credores: Fabro N X -Castus N VI - Letus N XV ... (Fabro,
10 sestércios; Castus, 6 sestércios; Laetus, 15 sestércios;
etc.). Dentre
todas, a mais significativa talvez seja aquela dedicada à própria
parede: admiror o paries te non cecidisse ruinis - qui tot scriptorum
taedia sustineas (Muro, fico surpreendido que você não caia envergonhado
sob o peso daquilo que se escreve sobre você).
Entre
os grafites mais interessantes encontrados em Pompéia
está o quadrado mágico do Sator. Este palíndromo,
composto por 25 letras, pode ser lido em todas as direções,
sem alteração de seu sentido. Alguns autores levantaram a
hipótese
que as letras, anagramadas, possam compor a fórmula Pater Noster
e que, junto à palavra TENET disposta em forma de cruz, seriam o
testemunho da presença de grupos cristãos na cidade. Perseguidos
pelas autoridades, os cristãos agiam ocultamente e se comunicavam
por meio de mensagens criptografadas (do grego kriptós, escondido - que precisa de uma chave para ser entendido). De forma semelhante, as inscrições
de conteúdo
político do século XIX, assim como as pichações
modernas, também são escritas de forma hermética,
empregando siglas e códigos inteligíveis apenas às
pessoas capazes de decifrá-las.
Segundo alguns estudiosos o quadrado do SATOR está ligado às
primeiras civilizações agrícolas e à invenção
da escrita. A leitura mais provável, neste caso, é a chamada
bustrophedón, que imita o caminho dos bois que aram o campo. A
tradução emblemática das palavras em latim sator
opera tenet arepo rotas seria 'o semeador Arepo mantém em
obra as rodas'. A interpretação da palavra AREPO como
abreviação
de 'A Rerum Extremarum Princípio Omni' seria a chave
para outra leitura: 'Deus mantém as obras do homem em sua
mão
desde o começo da existência das coisas' 47.
43 A,
de Simone et. G. Verchi, Pompéia e seus muséus,
1980, p. 81.
44 E. Bairati, A. Finocchi, Storia dell’ arte in Italia, vol.1,
1984, p. 162.
45 A. de Simone et. G. Verchi, op. cit. p. 100.
46 A. Canu, Graffitis de Pompéia, s.d.:
47 E. C. Corti, Herculano e Pompéia, 1964, p. 270.
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