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Roma e Pompéia


 
A Coluna Trajana.
Com quase 30 metros de altura,
o monumento romano retrata episódios da guerra na Dácia (101-102 e 105 d.C.)

Entre o século VIII a.C. e o III d.C., os antigos romanos passaram da monarquia dos primeiros reis para a república. Depois de construir um enorme império, os romanos irão decair com o advento do cristianismo e as invasões bárbaras. Os romanos distinguiram-se pela grandiosidade de suas obras de engenharia e arquitetura: estradas, aquedutos, vilas e anfiteatros.
De mentalidade prática e funcional, relegaram o uso de estátuas de divindades aos locais de culto. Herdeiros da tradição pictórica do povo Etrusco, nas representações exaltavam o elemento humano, fugindo assim do aspecto mitológico, característico das obras gregas.
Com a realização de retratos, um gênero de pintura já empregado antes pelos egípcios, nobres e ricos romanos exerciam o direito de reproduzir a própria imagem e a de seus antepassados. O emprego público da própria imagem não era prerrogativa de todos. O ius imaginum, o privilégio de exibir uma efígie de cera dos próprios ancestrais no átrio da casa, era concedido apenas às famílias nobres 43.
O simulacro passa a ser empregado então como poderoso instrumento de propaganda política e militar. O imperador Augusto (27 a.C. – 14 d. C.), por exemplo, encomendava retratos diferentes conforme a finalidade: uma estátua, em que era representado de forma idealizada e numa pose solene, evocava sua presença no fórum, centro político e econômico da cidade. Já no ambiente doméstico das vilas e palácios, o Imperador era retratado de forma realista e despojada.

Impresso nos sestércios, as moedas da época, o perfil dos imperadores romanos circulava por todo o Império. Suas vitórias eram celebradas com baixos-relevos em colunas monumentais e arcos de triunfo. A mais célebre destas obras é a Coluna Trajana. Inaugurada em 113 a.C., a obra é constituída por uma série de imagens que narram a guerra contra os Dácios. As cênas são arranjadas numa espiral com mais de 200 metros de desenvolvimento linear e seguem uma hordem cronológica. Dispostas de maneira ordenada, as figuras permitem uma leitura dos episódios, delimitados entre si por elementos do cenário como àrvores e construções.
A habilidade do autor e a riqueza no tratamento dos detalhes, fazem deste monumento uma das mais extraordinárias obras da antigüidade, muitas vezes apontada como um exemplo de proto-quadrinho. O artista, que alguns estudiosos identificaram como o arquiteto Apolodoro de Damasco, soube lidar sobriamente com esta obra tão comprometida com o poder, exaltando o aspecto histórico do acontecimento e fugindo de heroísmos pessoais. A falta de bajulação com a qual é retratado o Imperador (que aparece mais de 60 vezes), e a dignidade com a qual foram representados os inimigos, levantaram a suspeita de que os baixos-relevos possam ter sido realizados por um prisioneiro, que ficou conhecido apenas como 'mestre das empreitadas de Trajano' 44.

Outros monumentos comemorativos, como obeliscos e arcos de triunfo, costumavam ser levantados nos foros e no começo das estradas romanas. As imagens realizadas nestes monumentos eram acompanhadas de legendas gravadas com letras maiúsculas do alfabeto romano. Os caracteres eram embelezados com serifas, pequenos traços colocados nas extremidades das letras. Por tornar a leitura menos ‘áspera’, este tipo de caracter seria empregado muito mais tarde nos livros impressos. Este trecho que você esta lendo, por exemplo, utiliza a fonte times new roman, variação moderna das letras de Roma. Entre os grafiteiros de hoje, a elaboração de adereços como serifas e setas está à base do desenho das letras. O wild style, leva ao estremo esta prática.

O mais significativo testemunho da produção de grafites nesta época foi encontrado em Pompéia. Situada próxima ao vulcão Vesúvio, no sul da Itália, a cidade foi submersa por uma erupção em 79 d.C. Por baixo da lava, o dia a dia da cidade e de seus moradores surpreendidos pela catástrofe, ficou ‘congelado’ até meados de 1800, quando começaram as primeiras escavações. O grande número de grafites, mosaicos e pinturas parietais encontrados, constitui um registro singular da intensa obra desenvolvida por ‘pintores artesãos’ ao longo de quatro séculos de atividade. A diferença dos grafites modernos, os murais eram realizadas principalmente no interior dos edifícios. Na rua, os pompeianos gravaram inscrições muito parecidas com as modernas pichações.

Havia duas espécies de pintores: os imaginarii, que realizavam as figuras principais e as paisagens, e os parietarii, que complementavam a obra com motivos decorativos 45. De maneira geral, as cópias eram extremamente comuns no mundo romano: o valor de uma obra estava antes no sujeito retratado do que na originalidade de seu autor, considerado, aqui também, antes um artesão que um ‘artista’.
No interior das casas, o gosto pela pintura começou com a influência que a cultura grega teve sobre a cidade até a conquista romana, em 80 a.C. Dos gregos, os pompeianos assimilaram modelos e mitos amplamente reproduzidos nas pinturas. É evidente a predileção por personagens como Teseu, representado com o Minotauro a seus pés, Perseu, o matador da Medusa e Baco, presença obrigatória, junto ao seu séquito, nesta cidade de comerciantes de vinho.
Os afrescos da Villa dei Misteri, empregado na iniciação ao culto de Dionísio, estão entre as mais interessantes. Dispostas em seqüência ao longo das paredes, as imagens ilustram episódios da vida desta divinidade. O tema de cada painel corresponde a uma etapa da iniciação.

Presentes em praticamente todas as paredes da cidade, as inscrições são em sua maioria mensagens eleitorais, realizadas em letras maiúsculas por pintores profissionais. As escritas eram feitas durante a noite com o auxílio do dealbator, que estendia o fundo branco e do lanternarius, que segurava a lâmpada e a escada. Junto a estas inscrições ‘oficiais’, aparecem inscrições com mensagens de amor, declarações e desenhos deixados pelos cidadãos da província. Algumas registram um acontecimento: hic futui - XIX K Sep XIII K Sep (Aqui beijei em 14 e 20 de agosto); outras escondem trocadilhos: Floronius - benef ac miles - leg VII hic - fuit neque – mulieres - scierunt nisi - paucae et – seserunt (Floronius, soldado de primeira classe da 7ª legião esteve aqui. E as mulheres não ficaram sabendo, menos algumas, e estas a ele se deram). Nesta frase a palavra seserunt pode também ser lida sex erunt (aqui fizera sexo) 46.
Nas tabernas e nas lojas, também ficaram gravadas listas de nomes e números que podem ter representado tanto contagem de pontos de algum jogo quanto o saldo dos credores: Fabro N X -Castus N VI - Letus N XV ... (Fabro, 10 sestércios; Castus, 6 sestércios; Laetus, 15 sestércios; etc.).
Dentre todas, a mais significativa talvez seja aquela dedicada à própria parede: admiror o paries te non cecidisse ruinis - qui tot scriptorum taedia sustineas (Muro, fico surpreendido que você não caia envergonhado sob o peso daquilo que se escreve sobre você).

E
ntre os grafites mais interessantes encontrados em Pompéia está o quadrado mágico do Sator. Este palíndromo, composto por 25 letras, pode ser lido em todas as direções, sem alteração de seu sentido. Alguns autores levantaram a hipótese que as letras, anagramadas, possam compor a fórmula Pater Noster e que, junto à palavra TENET disposta em forma de cruz, seriam o testemunho da presença de grupos cristãos na cidade. Perseguidos pelas autoridades, os cristãos agiam ocultamente e se comunicavam por meio de mensagens criptografadas (do grego kriptós, escondido - que precisa de uma chave para ser entendido). De forma semelhante, as inscrições de conteúdo político do século XIX, assim como as pichações modernas, também são escritas de forma hermética, empregando siglas e códigos inteligíveis apenas às pessoas capazes de decifrá-las.
Segundo alguns estudiosos o quadrado do SATOR está ligado às primeiras civilizações agrícolas e à invenção da escrita. A leitura mais provável, neste caso, é a chamada bustrophedón, que imita o caminho dos bois que aram o campo. A tradução emblemática das palavras em latim sator opera tenet arepo rotas seria 'o semeador Arepo mantém em obra as rodas'. A interpretação da palavra AREPO como abreviação de 'A Rerum Extremarum Princípio Omni' seria a chave para outra leitura: 'Deus mantém as obras do homem em sua mão desde o começo da existência das coisas' 47.

43 A, de Simone et. G. Verchi, Pompéia e seus muséus, 1980, p. 81.
44 E. Bairati, A. Finocchi, Storia dell’ arte in Italia, vol.1, 1984, p. 162.
45 A. de Simone et. G. Verchi, op. cit. p. 100.
46 A. Canu, Graffitis de Pompéia, s.d.:
47 E. C. Corti, Herculano e Pompéia, 1964, p. 270.


 
   
 

Afresco com o Sator, pintado no teto de um depósito de vinho de Belo Horizonte. A mesma composição, que pode ser lida em todas as direções, foi encontrada numa coluna em Pompéia.
 

 

 

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