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Da escrita sagrada à interdição da imagem

A realização de engenhosas obras de irrigação e a formação de aglomerados urbanos modificou as relações humanas e os meios de se comunicar. Algumas pessoas deixaram de participar da vida agrícola, e passaram se dedicar a outras atividades, inclusive a de contabilizar e fiscalizar o trabalho dos outros, função dos escribas. Nestes primeiros centros urbanos, os povos se organizaram política e economicamente em torno de seus símbolos. Para as suas anotações e contas empregaram sinais que, aos poucos, passaram a indicar sons, tornando-se um instrumento para transpor a língua falada. Uma vez decodificados, esses signos podem transmitir conceitos.
Instrumento de controle e transmissão do saber, a prática de escrever continua sendo acompanhada pela produção de figuras. De forma diversa das composições aparentemente caóticas do paleolítico, essas imagens encontram-se dispostas de forma linear, inscritas em tiras e colunas. Com o testemunho dos primeiros textos, e a crescente complexidade das relações sociais, começa a História.

Lado 'guerreiro' do
Estandarte de Ur
.
Dispostos em três tiras, os soldados desfilam para a guerra. Na parte baixa o mais antigo registro de carros
treinados por cavalos.
A leitura se dava de direita para esquerda e de esquerda para direita, alternadamente.
O outro lado deste artefato, conhecido como lado pacífico, representa o banquete posterior à batalha.


As cidades da Mesopotâmia

Com o surgimento das cidades, a produção pictórica que acompanha os rituais mágico-religiosos passa a ser realizada no perímetro urbano. Um bom exemplo disto pode ser testemunhado no sítio arqueológico de Çatal Huyuk.
Habitado por volta de 6000 a.C. e localizado a cerca de 200 km de Ankara, capital da Turquia, Çatal Huyuk não tinha estradas e o acesso as casas se dava pelos telhados. A cidade conserva numerosos vestígios de pinturas parietais no interior dos edifícios. Realizados com cores vivas sobre uma camada de argamassa de barro branco, os murais ficavam visíveis por pouco tempo. Em seguida eram tampados com uma fina camada de gesso antes de uma subsequente caiação. Esse processo, evidentemente ligado ao caráter cíclico dos rituais, permitiu uma boa conservação das pinturas 16.


Por volta de 3000 a.C., na região da Mesopotâmia, inicia-se uma autêntica revolução urbana. Cada cidade é identificada com uma divindade. No caso de conquista, o Deus é substituído ou assimilada ao pantheon (do grego pan, tudo, e theós, Deus: todos os deuses) dos conquistadores. Nesses centros, a vida religiosa e as atividades do templo são administradas pelos sacerdotes, que praticam a adivinhação através da astronomia e da leitura das entranhas de animais sacrificados. A tradição da linhagem e da herança de títulos acompanha o surgimento de classes sociais com funções e direitos distintos.

É nesse contexto de organização política e econômica que surge a escrita. Para representar produtos e quantidades no registro das operações comerciais, são empregados pequenos seixos: ‘pedrinhas’ de diferentes formas, chamados de calculi. Cada calculo corresponde a um determinado animal ou mercadoria. Assim, por exemplo, quando o proprietário de 50 bois quer vender uma manada, as pedrinhas são colocadas em esferas ocas de barro, que em seguida são lacradas e ‘carimbadas’ com o auxílio de um pequeno selo plano ou cilíndrico 17. Uma vez entregue, a mercadoria é conferida com o relativo calculo: 50 pedras redondas =50 bois. Parecido com uma moderna tira de quadrinhos, o selo empregado para lacrar a esfera de barro traz inscrições e imagens relativas ao conteúdo ou ao seu dono. O feixe de junco, por exemplo, representa a deusa Inanna (Astarte) de Uruk.

Com o tempo os calculi foram substituídos por pictogramas, desenhos estilizados que indicam o próprio objeto representado, como uma casa ou uma cabeça de gado. Esses desenhos, associados, podiam expressar conceitos ou ações, como por exemplo água + boca = beber.
Realizada com o canto de um estilete de junco sobre tábuas de argila cozida, a escrita cuneiforme (do latim cuneos, canto: escrita de forma de cuneo, triangular) evoluiu de cerca de 1500 pictogramas para a escrita fonográfica, composta de cerca de 500 signos. A cada signo correspondia uma sílaba que podia ser empregada para transpor diretamente a língua falada, assim como fazemos com os rebus (do latim rebus, som obtido por meio de coisas e imagens. A sílaba ‘pá’, por exemplo, mais a imagem de um pato = 'sapato'). Mesmo assim, o povo assírio preferiu empregar o antigo sistema ideográfico, tido como mais preciso, na compilação de documentos históricos e jurídicos. Esses textos, protegidos por um estojo de barro freqüentemente ilustrado com tirinhas de imagens, chegaram bem preservados até hoje.

Além da contabilidade assírios e sumérios deixaram uma ampla obra literária: contos, poemas e até verdadeiras epopéias. Os protagonistas destas primeiras narrativas fantásticas são os deuses, organizados segundo uma hierarquia que reproduzia a história e a estrutura da própria sociedade suméria.
Para suprir a difículdade gerada pela falta de um sistema uniforme e preciso de marcação do tempo, os povos da antiguidade costumavam associar uma determinada data a um episódio marcante, como uma epidemia ou uma inundação. Esta forma de datação continua sendo empregada até os nossos dias através de inscrições nas paredes de edifícios públicos.

Verdadeiras entidades semidivinas, os soberanos tornam-se também objeto dos primeiros registros escritos, como a lista dos reis, que testemunha a fundação e a dominação das cidades 18. Nestes antigos textos, lenda e realidade muitas vezes se confundem. Na epopéia de Gilgamesh, por exemplo, fala-se do Dilúvio Universal, um episódio cuja historicidade nunca foi comprovada. O semi-lendário rei Gilgamesh, soberano da cidade de Uruk, aparece já como protótipo da figura do herói: aquele que se distingue por suas façanhas, força e coragem e que transpõe o limite do seu território para empreender uma viagem, que geralmente vai até as profundezas do inferno, da qual retorna com sua bagagem de herói civilizador 19. O poema de Gilgamesh tem como pano de fundo a amizade e as tentativas do ser humano de evitar a morte. O personagem servirá de modelo para a mini-série homônima: Gilgamesh, de Jim Starlin 20.

Por volta de 2500 a.C. a região passa a ser dominada por tribos patriarcais de origem semita. Esses povos e seus soberanos inauguram uma nova fase histórica com a passagem das guerras rituais e de retaliação para as guerras de conquista. Sargão, Abrão e Assurbanipal, permanecem conhecidos até hoje graças à progressiva obra de informação promovida, por meio de imagens e escritas, pelos povos dominadores. Entre as obras realizadas para promover os feitos dos reis-guerreiros estão as estelas: colunas monolíticas esculpidas com textos e ilustrações. Estas composições serviam para comemorar uma vitória, uma oferenda ou a construção de um zigurate (pirâmide de degraus). A Estela da Vitória de Naram-Sin, soberano da linhagem do rei acádio Sargão (2470 a.C.), é tida como o primeiro exemplo de uma cena única que compõe texto e imagens sobre uma paisagem de fundo 21. No alto de uma fileira de soldados que procedem em zigue-zague, o Rei Sargão se destaca entre as outras figuras pelo tamanho. Ao lado do Rei está a montanha sagrada sobre a qual uma inscrição dirigida à divindade proclama seus feitos. Naram-Sin é o primeiro rei a reivindicar a linhagem divina ainda em vida.

Os autores da Mesopotâmia deixaram outros exemplos de narrativas ilustradas. Como numa história em quadrinhos, as imagens são dispostas numa tira. A leitura destas imagens não seguia necessáriamente a ordem à qual somos acostumados hoje, de esquerda para direita e de cima para baixo. O sentido mais comun era o da direita para esquerda, numa linha, e da esquerda para a direita, na outra, alternadamente. Esta trajetória, chamada bustrophedón (do advérbio grego bustrophedón, ‘voltando como os bois que aram’), deve o nome ao caminho percorrido pelos bois que aram o campo. Um exemplo deste tipo de composição é o Estandarte de Ur, um mosaico formado por conchas e lápis-lazúli dispostos num fundo de betume.

Com o tempo, os signos cuneiformes são reduzidos para 22, correspondentes a letras consoantes. A vogalização destas sílabas se dava com a leitura. O primeiro alfabeto não cuneiforme só será elaborado por volta de 1100 a.C. pelos fenícios, um povo de comerciantes. Navegadores habilidosos, os fenícios contribuíram para a difusão do alfabeto em todo o Mar Mediterrâneo. A leitura e a produção de escritas tornou-se então acessível a um grande número de pessoas, fazendo das lendas e das histórias escritas o patrimônio da humanidade.

 

 


A 'Pequena Babel' de Peter Bruegel (o velho) retrata o surgimento da cidade e a idéia de um centro, um ‘ubigo’ do mundo. O mesmo tema aparece na história 'A Torre', dos belgas Schuiten e Peeters.
Imagem: Kunsthistorische Museum, Viena.
A Torre de Schuiten e Peeters de: L’eternauta n. 79, de 1989
 

Tábua de argila gravada com um selo cilíndrico que representa o deus das águas Enki, junto ao seu vizir de dois rostos, Usmu.
Ao lado deles, a deusa Inanna (Astarté) e o deus-sol Utu, surgindo atrás de uma montanha. Uma inscrição pictográfica complementa a imagem.
Os selos eram empregados para lacrar documentos ou envelopes de argila utilizados como registro contábil.
Réplica de argila conservada no British Museum, em Londres.

 

Tábua de argila com inscrições cuneiformes. Na parte baixa do estojo, também de barro, está impressa uma cena figurativa. A tábua, originária de Kaiseri (Turquia), foi realizada por volta de 1950-1850 a.C.
Imagem: Tülkepe, Kaiseri (Turquia).

 
Inscrições em edifício público realizadas sobre um afresco da casa patronal de Selva di Cadore, (Itália), registram datas e acontecimentos que marcaram a história da aldeia. Na inscrição: no ano de 1695, o dia 12 de agosto caiu um (....) de noite que destruiu grande parte da roça. Outras duas inscrições datam de 1776 e 1778.
Foto: Piero Bagnariol.
 

Gilgamesh de Jim Starlin, publicado no Brasil pela Globo em 1990..
Imagem: Editora Globo, 1990. ©1990 DC Comics.

 

16 M. Roaf, Mesopotâmia, 1996, p. 41.
17 Ibidem, p. 70.
18 Ibidem, p. 81-82.
19 A. Castelli et F. Giromini, Almanacco del Mistero 1992, Milano: Sergio Bonelli Editore, 1992.
20 J. Starlin, Gilgamesh, minissérie em 4 edições, São Paulo: Editora Globo, 1990
21 M. Roaf, op. cit. p. 96.
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