| O caminho da escrita
Com as mudanças climáticas provocadas pelo retraimento das formações glaciais e a conseqüente melhora nas condições de vida, a população humana conhece, a partir de 7-8.000 a.C., um notável desenvolvimento demográfico. Os grupos tribais do neolítico (idade da pedra polida) se transformam em pequenos povos. Os coletores de alimentos, que habitam as grandes estepes da Ásia, começam a criar e acompanhar rebanhos de animais, utilizando o cavalo, e mais tarde a carreta, como meio de transporte. Cobrindo grandes distâncias, estes povos nômades contribuem para a difusão de temas característicos de quase todo o hemisfério norte 12. Cenas de caça como aquelas do período paleolítico tornam-se mais raras. A representação realista deixa de ser uma operação mágica e as imagens de uso mais freqüente tornam-se esquemáticas: signos e sinais substituem os desenhos à medida em que sua produção e sua leitura torna-se acessível a um número cada vez maior de indivíduos.
Os animais permanecem o tema principal nas representações destes povos, que começam a distingüí-los entre domésticos e selvagens. Recurso alimentar, companheiro familiar ou ser sagrado, o animal é freqüentemente empregado para classificar clãs, localidades ou mesmo as constelações zodiacais.
A figura do veado, que toda primavera renova seus chifres, é uma das mais difundidas, passando a simbolizar a fecundidade e o ritmo do crescimento da natureza. Simplificados e padronizados, os desenhos de animais servirão enfim para a elaboração da escrita pictográfica (do latim pictu - pintar- e grapheim - escrita).
Com o advento das civilizações agrícolas, o homem deixa seus itinerários sazonais e se instala nas cidades. O território ao redor desses aglomerados passa a ser identificado então conforme a sua localização em relação a este centro 13. O próprio conceito de passagem do tempo muda e pssa a ser associado aos ciclos de plantio e à rotina imposta pelo ritmo urbano. Alguns símbolos, como a espiral e a suástica, empregados ainda hoje, permitem representar esta nova percepção do espaço-tempo, medidos a partir de um ponto fixo.
O conflito provocado pela passagem de uma sociedade de pastores nômades para as primeiras civilizações agrícolas será lembrado em diversas culturas pelo mito dos irmãos gêmeos. Como já vimos no caso da África, o surgimento dos signos está ligado ao sacrifício de um dos dois irmãos e comporta a imolação, o corte da carne e o derramamento ritual do sangue. Cada etapa do sacrifício tem um valor simbólico e exprime de forma concreta um pensamento. O objetivo é conseguir um benefício real por meio da representação. Na HQ O homem da Somália 14, Hugo Pratt trata o tema do sacrifício invertendo o papel dos irmãos Caim e Abel.
Segundo Régis Debray 15 o próprio surgimento da imagem está relacionado com a morte. Entre os povos agricultores o lugar do enterro passa a ser sinalizado com túmulos ou estelas funerárias, monolitos de pedra que trazem inscrições e desenhos relativos ao defunto. Em alguns casos, a tumba constitui um pequeno templo de modestas dimensões, decorado com cenas. Repletos de imagens e objetos destinados à viagem no além, esses túmulos constituem nossos mais antigos museus. Diante do desaparecimento do ser, objetos e símbolos a ele associados permitem que este sobreviva de alguma forma entre os vivos. A palavra ‘signo’ deriva justamente do grego séma, que designa a pedra tumular.
Associada à mulher nas cerimônias da fecundação, a terra recebe o sangue do sacrifício e se torna o receptáculo do qual brota uma nova vida. Assim, existiria uma relação sagrada entre o agricultor que traça um sulco com o arado para ‘fecundar’ a terra e as incisões dos escribas, realizadas arranhando as tábuas de argila com o estilo. As duas ações demonstram o domínio adquirido pelo homem sobre a natureza, por meio do conhecimento e da técnica. No mito, esse momento corresponde à caçada do paraíso e à perda da inocência.
A planificação da produção agrícola, que fará com que os homens atuem de maneira consciente no ambiente, acompanha o surgimento da escrita. Como veremos mais adiante, esta relação será testemunhada por diversos documentos ao longo do tempo.
Com o aparecimento da escrita, a intervenção ordenada na natureza servirá de modelo para a formulação de leis e a regulamentação das normas sociais.
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Cena de acasalamento entre alces. Este grafite foi realizado na Noruega, entre 5000 e 2000 a.C. O estilo raio x, característico dos povos nômades, representa o animal como se fosse transparente e retrata de forma estilizadas os orgãos e o aparelho digestivo. Este esti lo se espalhou da Sibéria à America do Norte, evoluindo progressivamente para formas abstratas.
Imagem de: A. Lommel. A arte pré-histórica e primitiva,1978
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Grafites sobre pedra realizados pelo povo dos Camuni na Valcamonica (Italia). Os signos podem ser classificados classificados como: figuras antropomorfas (humanas); zoomorfas (animais); estruturas; instrumentos; símbolos e abstrações.
Imagem de: E. Anati. I Camuni. Milano: Jaka Book, 1979. |
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HQ O homem da Somália.
A marca na testa do agricultor, Cain, testemunha o fratricídio do irmão pastor, Abel.
Imagem de: Corto Maltese, n. 2, de 1992. |
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12 A. Lommell, op. cit., p. 70 e ss.
13 A. Leroy-Gourhan, O gesto e a palavra, vol. 2, 1965, p. 139.
14 H. Pratt, L’ uomo della Somalia, in: Corto Maltese n. 9 e 10. Milano: RCS Rizzoli, 1992.
15 R. Debray, Vida e morte da imagem, 1993, p. 22 a 24. |