| Fumetti Underground |
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| Eu frequentei escolas de arte, e, ainda que meu desenho esteja longe do estilo realista, tenho uma formação clássica. Estudei as técnicas pictóricas tradicionais, desenho acadêmico e anatomia. Esta base me foi útil para andar avante. O que mais me interessa é a violência expressiva, representar o lado emotivo da realidade. O desenho realista que quer representar a realidade de modo objetivo, ainda que eu reconheça nele uma qualidade técnica, me entedia. Prefiro as transgressões à la Jack Kirby, um equilíbrio justo entre real e invenção gráfica. Se tem um desenhista que me influenciou realmente, foi Al Feldstein, da EC Comics. Esse seu estilo tipicamente anos 50, realista mas ao mesmo tempo grotesco, sempre me fascinou, é uma estranha alquimia que depois eu reencontrei em Charles Burns e em Daniel Clowes. Artísticamente eu sou muito ligado a estes autores, mas obviamente não são os únicos que me contagiaram. Mais que o quadrinho underground dos anos 70, o que me influenciou no desenho foi a produção independente italiana dos anos 80 e, sucessivamente, aquela dos anos 90, da Fantagraphics e da Kitchen Sink Press. Me atrai, como base, o imaginário popular dos anos 50, como os filmes “B” e os quadrinhos da EC, mas também desenhistas como Magnus, Norman Saunders, Eric Stanton, Basil Wolverton, Bob Kane... Creio que uma divisão mais marcada entre quadrinho underground e comercial tenha surgido sobretudo nos EUA. Ainda que alguns autores, como Richard Corben, tenham se inserido na produção mainstream, o mercado oficial não permite interseções com o quadrinho underground, e creio que haja ainda um forte controle e censura sobre as temáticas destinadas aos leitores. Mas a imprensa independente não parece se render, e a produção é ainda muito vasta.Na Itália, ao contrário, alguns autores pretensamente underground, começaram a publicar desde o início em algumas revistas de grande difusão. Uma destas é “Alter Alter”, nascida no fim dos anos 70 como suplemento da revista humorística “Linus”. O editor, que não tinha origem underground, foi particularmente atento a esta corrente, e na “Alter Alter’ ele publicou alguns autores de “Cannibale” e, depois, da “Frigidaire”, como Andrea Pazienza, Filippo Scozzari, Igort e Massimo Giacon.Um fato curioso de interseção entre underground e quadrinhos tradicionais, diz respeito ao talentoso Massimo Mattioli, também desenhista do grupo de “Cannibale”. O estilo de Mattioli recorda vagamente o de Robert Crumb, com animais antropomorfos típicos da cultura da infância, que vivem histórias de violência e sexo explícito... mas o bizarro é que o autor desenhava também uma série humorística para um jornal distribuído principalmente nas igrejas...Hoje o quadrinho independente é profunda-mente diferente comparado ao de trinta anos atrás. Se queremos encontrar pontos em comum, só recentemente se acendeu uma maior atenção a temáticas de cunho social e político, houve um retorno ao experimentalismo no desenho e a vontade de fugir de certos cânones pretensamente ligados ao quadrinho. Hoje grande parte da produção independente na Itália é estreitamente ligada à experiência anos 80 da “Frigidaire”. Os grupo mais radicais são caracterizados por temáticas fortes e de ruptura; outros tendem à aproximação com as artes plásticas ou a ilustração, propondo um estilo mais sofisticado. A respeito do meu quadrinho, sou mais ligado ao gortesco, dos monstros e do humor negro, desde sempre procurei transmitir no papel aquelas que são minhas paixões, como o terror e a ficção científica dos filmes “B” dos anos 50.Assim como com o cinema, também com os quadrinhos fui atraído por aquele popular, onde descobri coisas que me entusiasmam, por sua particularidade. Para dar um exemplo, na Itália tem um editor que, há mais de quarenta anos, publica quadrinhos populares com uma fórmula extremamente rigorosa. Entre as várias séries, todas realizadas com estilo realista , as mais famosas são o western “Tex” e o terror “Dylan Dog”, mas há também “Zagor”, uma estranha interseção entre western, aventura, terror e ficção científica. Entre os diversos desenhistas que se alternaram nesta série, nos anos 70 colaborou também Pini Segna. Tempos atrás, ouvi alguns fãs criticarem este desenhista, porque o seu “Zagor” não respeitava os cânones estéticos do personagem e seu desenho tendia para o grotesco. Pessoalmente, gosto muito dos quadrinhos de Pini Segna, técnicamente é muito bom, bastante pessoal e expressionista, e consegue evocar atmosferas que outros autores dificilmente são capazes de fazê-lo... o seu estilo é uma espécie de sublimação do quadrinho poppular, e é por isso que eu o considero o Al Feldstein italiano. Sucessivamente, eu descobri que, no pós-guerra, ele foi um dos pioneiros das publicações para jovens, e depois, nos anos 70 e 80, ele publicou, sempre para o mercado popular, quadrinhos extremamente atípicos e bizarros. CINEMA Esta minha paixão pelo cinema “B” vem da minha infância, eu via estes filmes como tesouros secretos, um cinema esquecido e fora do tempo que me atraía por esta sua aura misteriosa, de temáticas absurdas e estética bizarra. Hoje, o terror é um tema recorrente nos meus quadrinhos, mas na verdade quando eu era criança o interesse por esse gênero era secundário, com relação à ficção científica. Não acontecia de eu ver com frequência filmes de ficção científica, e é por essa razão que eu me dediquei mais ao terror. Não conto histórias para assustar os leitores, procuro ironizar, a minha visão é, sim, grotesca, mas divertida e quase zombeteira. O cinema “B” continua a minha principal fonte para os quadrinhos. Provavelmente sou muito influenciado pelo quadrinhos da “EC Comics”, porque, por sua vez, fazem referência a este tipo de cinema. Para falar a verdade sou atraído por toda a cultura popular daqueles anos, meio ingênua e de costumes. Os filmes “B” são filmes rodados às pressas, com poucos meios, os personagens são esquemáticos e hoje as tramas podem parecer chatas e involuntariamente cômicas, mas são estes elementos que me atraem. Quando se olha para trás com nostalgia, e aquilo que parecia feio ou grotesco, agora que não nos pertence mais, à distância de anos nos parece reconquistar valor, e é por este processo cíclico que acredito que muitas besteiras de hoje se transformarão em “cult” em 2030. O cinema para mim foi fundamental, e a fotografia também. Creio que o quadrinho esteja muito próximo ao meio cinematográfico. Me ocupo ocasionalmente de vídeomontagens e o quadrinho me é muito útil. Creio que no cinema se colocam em jogo as mesmas capacidades para realizar um quadrinho - me refiro ao ritmo da história, composição da imagem, luzes... EDITORIA Como editor tenho uma experiência que continua até hoje. Comecei publicando ensaios sobre os quadrinhos, principalmente o japonês, além de algumas incursões na literatura. Trabalhei pela “Granata Press” e, após o seu fechamento, decidi trabalhar por conta própria e dar continuidade à experiência com ensaios. Tinha encontrado uma fórmula que possibili-tava imprimir os livros sem me arriscar muito em termos econômicos. Recolhia as encomendas nas livrarias, através de um distribuidor, e imprimia uma tiragem baseada nos pedidos. Comecei também a realizar projetos para a impressão de alguns quadrinhos - italianos e do exterior, fazendo contatos e programando títulos. Infelizmente, estava em sociedade com algumas pessoas que tinham dificuldade em acompanhar a atividade editorial, tinham outro trabalho e sua participação era escassa. Sozinho não conseguia acompanhar o trabalho da editora e muitas vezes pedia ajuda a outras pessoas. Apesar das publicações terem boa saída, a editora precisava ainda crescer, e com aquele clima parecia nunca decolar. Decidi deixar aos sócios a atividade editorial e me ocupar exclusivamente de projeto gráfico e desenho. Daí a pouco a editora fechou. Eu já tinha saído, ma fiquei muito sentido com isto. Há alguns anos retomei a atividade editorial, mas em outras áreas. Na Itália os quadrinhos foram parar nas livrarias. Infelizmente há problemas ligados à distribuição. O maior distribuidor de quadrinhos nas livrarias é ele mesmo um editor de quadrinhos. Isto cria um conflito de interesses. Além dele há uns dois distribuidores menores ligados a um pequeno número de pontos de venda. Se você não tem uma produção constante e diferenciada, os distribuidores não te levam muito a sério. Cerca de 50% da venda é cedido ao distribuidor. Hoje, cada vez mais, a tendência é o quadrinho independente ser vendido diretamente nos salões.Atualmente meus quadrinhos são publicados pela “Nicola Pesce Editore”, ex-“Undeground Press”, nas publicações coordenadas por Massimo Perissinotto, formidável desenhista undergound como poucos na Itália. Ele é ativíssimo há mais de vinte anos no meio da produção independente. A gente se conheceu no meio dos anos 90, na época da colaboração com a “Frigidaire”. Recentemente para a antologia “Resistenze”(10), da “Becco Giallo”, que recolhe o melhor do quadrinho independente italiano, realizamos uma HQ juntos, como tinhamos feito há mais de quinze anos nas páginas de “Bzz Comix”.Uma revista que atiçou na Itália o espírito do underground histórico foi “The Artist”. Hospeda os principais nomes do quadrinho independente a nível mundial. Publicou entrevistas e personagens como Al Feldstein, participam dela autores como Kaz, Mike Diana, Max Capa, Doug Allen, Bacilieri, Bill Wray, Hunt Emerson e outros mais... É impressa em tamanho grande... quem anima tudo é Ivan Manuppelli, um garoto muito novo com uma energia estrondosa. Impressa digitalmente, com tiragem limitada e distribuída quase à mão... sai praticamente um número por ano, é um milagre como se sustenta. Recentementa organizou uma exposição em Milão da qual participei. A produção independente dos últimos anos estava toda lá. “The Artist” não tem muitos anos, saíram 6 números... infelizmente a descobri tarde demais, mas estou em contato com Ivan e ultimamente falamos de uma colaboração a respeito de um roteiro dele, além disto é un desenhista muito bom que lembra muito o estilo underground dos anos ‘70. Na Italia há vários grupos independentes. Me parece que há um clima de solidariedade. De ajuda recíproca, contrariamente àquilo que acontece entre os editores comerciais. Tem “Stampa Alternativa”, ativa desde os anos 70, o grupo de “Decoder”, ativo desde os anos 80, “Topolin Edizioni”, que não sei como ficou após o sequestro de alguns quadrinhos de Miguel Angel Martin e Alvarez Rabo, “Lamette”, “Canicola”, “E.F. Edizioni”, “B-Brand Comix”, “Nicola Pesce Editore”, dentre outros. A listagem seria muito comprida....Citei “Decoder” e não posso não falar do recente falecimento do Prof. Bad Trip (9), que nos deixou em 25 de novembro de 2006 , com 43 anos. Gianluca Lerici, conhecido como Professor Bad Trip, era o maior artista visionário do cenário underground italiano. Dono de um traço àcido e inconfundível, ativista do movimento artístico mail-art, estrepitoso illustrador, anômalo quadrinista e mestre da serigrafía, foi o melhor intérprete visual do movimento ciberpunk na Itália. INTERNET Internet tem grandes vantagens. Hoje estou muito mais informado sobre o que acontece do outro lado do mundo. Se para muitos a impressão é um obstáculo econômico, a internet virou uma alternativa acessível a todos para difundir informação. Houve tentativas, na minha opinião pouco eficazes, de veicular os quadrinhos pela internet. Acho que o papel impresso é o lugar ideal para este tipo de mídia. Por quanto seja pequeno um laptop, um livro é muito mais cômodo como suporte para leitura. Já o desenho animado é mais apropriado. Os blogs, porém, são um lugar muito frequentado por desenhistas. Quase todos os autores da nova geração têm um blog, muitas vezes utilizado como portfólio. Eu também este ano, apesar de estar na rede há mais de 10 anos, decidi criar um. Para alguns contatos, um bom ponto de partida pode ser meu blog cicciofoca - ali tem uma série de links que levam a outros links e a outros projetos. É uma corrente... e as colaborações são frequentes. Muitas iniciatívas editoriais independentes surgem destes blog. Se daqui a um tempo poderei publicar nos Estados Unidos pela “Raw Comics”, na “Faust vs Calavera” e outros pin-up book com personagens dos irmãos Vigil e de Enrico Teodorani, é pelos contatos conseguidos através do blog. Sites do autor: |
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