No início
eu comecei a pichar, eu ainda morava num bairro com minha avó.
Eu posso dizer assim, que era um bairro de boy, o pessoal tinha uma condição
financeira melhor. E lá eu comecei a andar com uns amigos que já
eram pichadores, eu era pequeno e eles já tinham muita pichação,
tinham fama em Belo Horizonte e em Santa Luzia. Comecei a pichar e eles
começaram a caçoar de mim, porque eu não tinha pichação
e eles era conhecido. Nisso eu me senti muito mal, pensava assim: ‘pô,
eu não tenho pichação’. Depois de um tempo,
minha avó morreu e eu passei a morar na Pedreira. Ia visitando
os lugares que eu morava antes, só que na Pedreira não tinha
pichador. Aí eu comecei a pichar na Pedreira, aí já
foi começando, começando, e nisso o pessoal de onde eu morava
viu que eu tava aparecendo mais pro lado do Centro da cidade, eles começaram
a comentar, aí eu fui ficando com fama, todo mundo co-nhecendo,
comentando... Aí eu entrei pra galera da Pedreira que já
existia antes, e que tava meio parada, e comecei a pichar pra eles também.
Aí já havia alguns pichadores, só que do outro bairro,
que era AG2000. Primeiro tentei entrar na AG2000, só que eles tinham
uma política que eles não queria deixar. Aí eu falei:
‘pô, não quer deixar. Eu vou levantar uma galera que
vai ser melhor que a deles’. Aí eu entrei na AR, que já
existia, e passou a ser melhor que a deles na época que eles ainda
estavam na altura, com fama. Nós ficamos mais famosos que eles
porque também era da periferia (a AR).
Quando eu
entrei na AR tinha um pessoal que pichava ainda, só que eles estavam
meio desa-nimado. Aí eu conversei com o Gastão, que é
hoje o 00, eu passei a ser o 01, ele era o 01 na época, ele conversou
comigo, perguntou onde eu morava, ele não me conhecia muito bem.
Falei que morava na Pedreira, aí ele falou que eu podia marcar
AR. Ele era traficante na época, hoje já não é
mais. Um dia ele me chamou lá na boca e me deu duas latas de spray
Ipiranga, daquelas grande, e falou que era pra mim voltar lá quando
eu quisesse tinta. Aí que eu animei mais, comecei a ter mais vontade.
A AR foi criada por traficantes bem antigos mesmo, a maioria já
morreu. Antes do Gastão, quem tava comandando era o PC, traficante
também. Depois que o PC passou a traficar e parou de pichar, o
Gastão tomou posse da galera. Depois o Gastão nao pôde
mais, aí eu peguei. Ele passou pra mim, no caso, pelo motivo de
eu tá com ibope. Muitas pessoas não gostaram de eu ter virado
o 01. Eu não sei por quê. Nós tivemos uma reunião
uma vez: ‘não vai ter um 01, não vai ter essas coisas,
todo mundo aqui é igual, é favela, todo mundo é sangue
do mesmo sangue, não tem essa de um ser melhor do que o outro’.
E o Gastão me deu o 01 e quem não gostou eu cheguei e falei:
‘ó, eu não vou marcar 01. Eu aceitei ser o 01 pra
poder resolver as coisas, como se fosse um diretor, pra qualquer problema
que chegar eu ajudá a resolver. Pra qualquer coisa, pra marcar
as reuniões, essas coisas que eu aceitei’. Acho que já
vai fazer 6 anos que estou pichando com a AR. Até hoje eu vou,
mas de vez em quando, porquê... tô de maior, né? Já
pichei com varias galeras, já rolou até discriminação,
uma galera de boy que tentei entrá, os cara não quis deixá
porque eu era da favela.
O nome
“Seta” foi bem pensado. Primeiro eu comecei a pichar BOMBA,
depois PARLAS, SOLIT... só que depois eu pensei: prá ser
conhecido eu tenho que conseguir uma coisa que eu posso ver em qualquer
lugar. Aí eu fui procurando, procurando, e encontrei “Seta”:
em qualquer lugar tem uma seta... foi assim, também é um
nome legal e é uma coisa que você vê em todo lugar.
Prova de fogo
Antigamente, a pessoa pra utilizar ‘AR’ tinha que pichar o
lugar que foi escolhido e depois tinha que fazer alguma coisa, como dar
tiro em alguém. Mas isso era muito antes, porque a AR deve ter
uns catorze, dezesseis anos. Hoje é diferente. Pra entrar na AR
hoje eu converso com a pessoa, pergunto qual que é a da pessoa
mesmo. Mas também tem que ter moral dentro da favela. Se não
tiver moral dentro da favela eu não deixo entrar.
A galera
Quando tá a galera toda, pelo motivo de eu ser o 01 eu arrumo tudo,
converso com o pessoal antes, tipo uma reunião, eu falo ‘ó,
já que tem muita gente, vamo dividir o material e sair cada um
prum lado, porque se for todo mundo prum lado vai demorar muito’.
E às vezes alguns não gostam da divisão, e querem
ir com outro que foi prum lado. Aí a gente conversa e fala que
não, que é tudo a mesma coisa, a AR é uma pessoa
só, não tem isso, ninguém é melhor que ninguém.
Uma galera vai prum lado, outra pro outro, divisão de quatro, de
três... Às vezes também, quando tô sozi-nho
e dá vontade, eu vou, saio prá noite, sozinho mesmo. Teve
uma vez que nós tivemos que dormir em cima da marquise. O local
era uma casa abandonada, só que o pessoal que viu chamou a polícia.
Chegaram três ou quatro viaturas lá embaixo e mandaram a
gente descer, só que eles não viram a gente e nós
dormimos dentro da casa. Tentaram até arrombar, só que a
porta era de ferro - nós subimos pelo poste – e eles não
conseguiram entrar. Eu dormi, não sei se o outro dormiu. Aí
lá prás 6 horas acordamos, já não tinha mais
nada, todo mundo meio assustado. Ainda bem, ninguém rodou.
A escolha do lugar
Nós já pichamos em vários lugares perigosos, lugares
públicos, já dormimos em cima de marquises, já passamos
altos perigos. Antes, dependendo do lugar, a gente vai lá e estuda
o lugar. Se for um lugar que a gente sabe que vai dar muito ibope, por
exemplo, a Prefeitura, o Mineirão, essas coisas, a gente vai no
lugar de manhã, vê como que sobe, quantas pessoas tem, onde
tem alarme e onde não tem, se tem cerca elétrica... À
noite a gente vai, se der certo, tudo bem, se não dá...
aí é problema. Há um lugar que foi o mais falado
até hoje, que foi o Mineirão. Foi estrago mesmo que nós
fizemos, deu muito ibope. Um lugar que é muito popular, todo mundo
conhece, já foi filmado, publicado no jornal, todo mundo comentando,
pessoas que não estavam nem aí pra pichação
passaram a reconhecer, a conhecer a AR. Primeiro foi quatro pessoas comigo,
depois foi três, que não deu pra terminar tudo num dia, nós
voltamos várias vezes porque duas vezes apareceu o segurança,
acho que foi só uma vez que não apareceu o segurança.
A última vez, quando terminou, a gente não tava nem acreditando
que era tanta pichação só nossa, o Mineirão
todo. Sentamos lá fora, dentro do Mineirão mesmo mas no
corredor, e ficamos conversando. Então apareceu três seguranças,
um do lado, dois do outro, e nós tivemos que pular lá de
cima do negocio... Eu já fui preso também, fui preso em
cima do Odilon Behrens. O Odilon é quase dentro da favela, nós
começamos a pichar e apareceu uma viciada e começou a gritar
que ‘tava legal’, que era ‘muito doido’... Começou
a chamar a atenção, aí o segurança do hospital
viu, chamou a policia, cercaram o hospital, mais de dezesseis seguranças,
não sei se acharam que a gente queria roubar alguma coisa... não
tinha nem jeito de correr. Eu fui parar no DEON, era de menor ainda. Lá
dentro... cadeia né? Cadeia é um lugar que não tem
nem como cê explicar, só quem passa mesmo pra ver, apesar
de o DEON ser uma cadeia pra ‘de menor’, lá você
pode ver como que é a cadeia pra ‘de maior’. Cadeia
é cadeia mesmo. Eu fiquei dois dias preso. Lá no DEON, tem
que ir algum parente buscar, só que como eu não tinha parente
disponível na hora, fiquei dois dias.
As outras galeras
Já tivemos muita briga com outras galeras. No Mineirão,
quando é Atlético x Cruzeiro, junta a nossa galera, briga
com as outras... A gente marca também, já marcamos muita
briga na Savassi, no Centro, ou às vezes a gente juntava a galera
e ia no bairro, brigava, riscava pichações, eles riscava
as nossas... Isso foi no começo, quando a AR estava levantando,
subindo de novo e não era tão respeitada igual é
hoje. Hoje não tem isso mais, porque todo mundo já respeita.
Eles passaram a ter medo, depois que começou a ser publicado coisas
sobre nós, passou na televisão, eles viram que o local onde
a galera se encontrava era perigoso, passaram a respeitar. E hoje quando
a gente passa, o pessoal fica olhando, fica conversando... Quando a gente
vai em danceteria o pessoal rodeia, às vezes a gente até
acha que é confusão, junta todo mundo também, que
se acontecer alguma coisa... mas é só pra ver quem é,
ver a pessoa, conversar... Teve uma festa de rap na Pampulha, foi um encontro
de vários pichadores. O pau quebrou. Só que eu não
fui, eu não gosto de rap mesmo, e também avisaram muito
em cima, eu já tinha uma coisa marcada. Hoje a gente não
briga mais, as galeras já não encaram mais, porque, eu não
sei, né, a maioria das galeras tem um temor muito grande da AR.
Ibope
O ibope é legal, é a mesma coisa de uma pessoa ser um artista,
ser conhecido. Onde cê passa todo mundo conhece, respeita... Alguns
tem medo, alguns acha que é bandido, traficante. Apesar de pichador
também já fiz muito, já roubei também, já
briguei, bati em briga com playboy, às vezes brigava à toa,
bati à toa... só que tem muita coisa que falam que não
é verdade. Muitas vezes já falaram que morri, só
que até hoje, graças a Deus, estou vivo. As mina também,
chegava em bairro de playboy, falava ‘alá o Seta, ó
os meninos da AR’, aí já juntava, vinha dando mole,
a gente pegava as mina e saía pra Fuzarca, Phenix, danceterias
assim. Já ganhei dinheiro também pra pichar, umas cinco
vezes já. A pessoa chegava perto de mim e falava ‘ah, picha
aí, escreve tal coisa e eu te dou tanto’. Já ganhei
lata de spray, várias coisas. Eu também fui brigar com um
cara, vinte reais e uma lata de spray pra brigar com um cara. Teve uma
vez que eu briguei sozinho e uma vez que a galera toda brigou. Eu fui
brigar, não tinha motivo nenhum... foi uma encomenda.
A cidade
Eu passei a pichar de verdade mesmo, com mais vontade, demorava mais,
levava mais material, quando estava mais nervoso. Às vezes eu saía,
ia e pichava, saía nas marquises e tudo... era o meu jeito de dispensar
a raiva que eu estava sentindo, os problemas, aí na noite eu deixava
os problemas todos, de manhã já esquecia tudo. Aí
era só verificar como que ficou as marquises todas... A cidade
à noite é muito parada. A polícia comenta: ‘se
tá na rua de madrugada é bandido’. A gente tem que
ter muita atenção, com carro, as pessoas também,
nós já corremos muito de polícia, pessoas já
deram tiro pro nosso lado. Madrugada, né. Não tem lei de
madrugada. Teve uma vez que nos estávamos pichando um posto de
gasolina. Parecia que o posto funcionava só de dia. Nós
pichamos o posto todo. Aí, quando nós estávamos indo
embora, parece que o dono do posto saiu do quarto, já começou
a atirar pro nosso lado. Nós corremos, távamos na BR, pulamos
pra dentro do mato do outro lado da rua. Foi um dos perigos maiores que
nós corremos.
Os Pichadores de Elite
Quando eu comecei a pichar eles ainda estavam pichando. Acho que os PE
era uma galera da Galoucura. A maioria dos pichadores de BH são
atleticanos, são poucos mesmo que são cruzeirense, mas são
os playboy. Os PE eram só os melhores de BH, apesar deles também
serem playboy, porque tinha dinheiro pra comprar lata, estas coisas. Quando
eu comecei eles ainda tavam no auge, com o maior ibope, era só
eles. Tinha o Paco, também, que pichou a maioria das igrejas do
Centro, saiu na televisão, no Fantástico... Hoje em dia
não é mais PE, é MB (‘Melhores de Belô’).
São só os melhores que marcam MB. Igual o Ash, é
MB. Aí no caso é assim, se uma pessoa da galera é
MB a galera toda é MB. Tem as festas também, só que
só vai atleticano, porque a maioria dos cruzeirense não
pode ir, senão dá briga. O Ash também é da
AR. Ele gosta de pegar muito as placas. Eu conversei com ele e ele falou
que era um lugar que ninguém nunca tinha pego. Praticamente todas
as placas de Belo Horizonte têm, está faltando uma ou duas,
quando eu vejo uma que não tem eu falo com ele e ele vai lá.
Muita gente acha, igual já comentaram comigo, que ele é
playboy, perguntaram se trabalhava na CEMIG, ou se trabalhava com caminhão,
que o pessoal levantava ele. Não, o transporte dele é só
uma bicicleta. Muita gente achava também que ele saía com
uma escada. Na madrugada não tem como sair com uma escada. Hoje,
em atividade, deve ter na faixa de vinte galeras. Era mais, mais de cinquenta.
Mas, também, isso tem época, quando todo mundo começa
aparece até galera mais nova, aí essa cidade só fica
sujão, ultimamente está ficando mais limpa...
Patrimônio
Eu não gosto de pichar igreja, eu acho um des-respeito, mas quando
é um patrimônio público, por exemplo, o Pirulito,
que é um lugar que o Brasil inteiro conhece, todo mundo passa por
aí, é um lugar de destaque e pode não ter pichação
nenhuma que se o cara pichar ele vai ficar falado um bom tempo ... nós
ja pichamos lá, só que apagaram. Um lugar que todo mundo
tenta pichar só que não consegue é a Prefeitura.
Já pegaram várias pessoas tentando pichar, tentando subir,
dormir lá dentro...
A polícia
Foram três vezes que a polícia foi lá em casa procurando
o Seta. Como o pessoal da minha familia sabe que picho mas não
sabe que sou o Seta, eles não sabiam informar e falaram que eu
não morava lá (foi por causa que os meninos da AR começaram
a traficar). Teve uma vez que eu estava com a camisa grafitada, escrito
Seta, e os policiais pararam e erguntaram se eu era o Seta. Eu falei que
não, que era uma camisa que eu ganhei de um amigo, só que
não morava lá mais, e eles falaram que iam ficar de olho
em mim, depois foram embora e não aconteceu nada. Procuraram o
Ash também, quando ele pichou um avião da TAM...
Porque pichar
Pichação não dá grana, é mais adrenalina
mesmo, quem faz gosta, quem faz pela primeira vez sempre volta porque
acha legal, você passa perigo... muita coisa... Você fica
com medo da polícia... O melhor também é quando você
consegue dar o perdido, polícia corre atrás e você
consegue despistar... Você fica mais excitado... Eu já passei
aperto pichando em cima de uma marquise, eu e o meu amigo Ash. A polícia
chegou e parou na frente da marquise, nós descemos por trás
e dispensamos o material em cima da marquise mesmo. Passamos na frente
dos policiais: eles olhando pra cima da marquise esperando a gente descer,
ficaram mais ou menos meia hora esperando, nós ficamos a uma distância
boa olhando eles esperando, rindo. Foi muito legal. Isso também
que dá muita vontade porque, prá gente que mora lá
na favela, polícia prá gente praticamente é o inimigo,
mesmo pra que não mexe com drogas e não faz coisa errada.
Polícia, se pegar de noite bate, faz maldade... nenhum favelado
gosta de polícia. É legal você chegar assim num local
e o pessoal tá assim: ‘nó, esses AR tão pichando’,
ou então: ‘o Seta pichou não sei onde’, ‘quem
é esse tal de Seta?’, e você escutando, isso é
legal, como se fosse aquele negócio de menino, querendo ser super-herói
e ninguém saber...
Entrevista Piero
Edição Fabiano
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