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Entrevista com SETA
novembro de 2003

 
O Mineirão

No início eu comecei a pichar, eu ainda morava num bairro com minha avó. Eu posso dizer assim, que era um bairro de boy, o pessoal tinha uma condição financeira melhor. E lá eu comecei a andar com uns amigos que já eram pichadores, eu era pequeno e eles já tinham muita pichação, tinham fama em Belo Horizonte e em Santa Luzia. Comecei a pichar e eles começaram a caçoar de mim, porque eu não tinha pichação e eles era conhecido. Nisso eu me senti muito mal, pensava assim: ‘pô, eu não tenho pichação’. Depois de um tempo, minha avó morreu e eu passei a morar na Pedreira. Ia visitando os lugares que eu morava antes, só que na Pedreira não tinha pichador. Aí eu comecei a pichar na Pedreira, aí já foi começando, começando, e nisso o pessoal de onde eu morava viu que eu tava aparecendo mais pro lado do Centro da cidade, eles começaram a comentar, aí eu fui ficando com fama, todo mundo co-nhecendo, comentando... Aí eu entrei pra galera da Pedreira que já existia antes, e que tava meio parada, e comecei a pichar pra eles também. Aí já havia alguns pichadores, só que do outro bairro, que era AG2000. Primeiro tentei entrar na AG2000, só que eles tinham uma política que eles não queria deixar. Aí eu falei: ‘pô, não quer deixar. Eu vou levantar uma galera que vai ser melhor que a deles’. Aí eu entrei na AR, que já existia, e passou a ser melhor que a deles na época que eles ainda estavam na altura, com fama. Nós ficamos mais famosos que eles porque também era da periferia (a AR).

Quando eu entrei na AR tinha um pessoal que pichava ainda, só que eles estavam meio desa-nimado. Aí eu conversei com o Gastão, que é hoje o 00, eu passei a ser o 01, ele era o 01 na época, ele conversou comigo, perguntou onde eu morava, ele não me conhecia muito bem. Falei que morava na Pedreira, aí ele falou que eu podia marcar AR. Ele era traficante na época, hoje já não é mais. Um dia ele me chamou lá na boca e me deu duas latas de spray Ipiranga, daquelas grande, e falou que era pra mim voltar lá quando eu quisesse tinta. Aí que eu animei mais, comecei a ter mais vontade.
A AR foi criada por traficantes bem antigos mesmo, a maioria já morreu. Antes do Gastão, quem tava comandando era o PC, traficante também. Depois que o PC passou a traficar e parou de pichar, o Gastão tomou posse da galera. Depois o Gastão nao pôde mais, aí eu peguei. Ele passou pra mim, no caso, pelo motivo de eu tá com ibope. Muitas pessoas não gostaram de eu ter virado o 01. Eu não sei por quê. Nós tivemos uma reunião uma vez: ‘não vai ter um 01, não vai ter essas coisas, todo mundo aqui é igual, é favela, todo mundo é sangue do mesmo sangue, não tem essa de um ser melhor do que o outro’. E o Gastão me deu o 01 e quem não gostou eu cheguei e falei: ‘ó, eu não vou marcar 01. Eu aceitei ser o 01 pra poder resolver as coisas, como se fosse um diretor, pra qualquer problema que chegar eu ajudá a resolver. Pra qualquer coisa, pra marcar as reuniões, essas coisas que eu aceitei’. Acho que já vai fazer 6 anos que estou pichando com a AR. Até hoje eu vou, mas de vez em quando, porquê... tô de maior, né? Já pichei com varias galeras, já rolou até discriminação, uma galera de boy que tentei entrá, os cara não quis deixá porque eu era da favela.

O nome
“Seta” foi bem pensado. Primeiro eu comecei a pichar BOMBA, depois PARLAS, SOLIT... só que depois eu pensei: prá ser conhecido eu tenho que conseguir uma coisa que eu posso ver em qualquer lugar. Aí eu fui procurando, procurando, e encontrei “Seta”: em qualquer lugar tem uma seta... foi assim, também é um nome legal e é uma coisa que você vê em todo lugar.

Prova de fogo
Antigamente, a pessoa pra utilizar ‘AR’ tinha que pichar o lugar que foi escolhido e depois tinha que fazer alguma coisa, como dar tiro em alguém. Mas isso era muito antes, porque a AR deve ter uns catorze, dezesseis anos. Hoje é diferente. Pra entrar na AR hoje eu converso com a pessoa, pergunto qual que é a da pessoa mesmo. Mas também tem que ter moral dentro da favela. Se não tiver moral dentro da favela eu não deixo entrar.

A galera
Quando tá a galera toda, pelo motivo de eu ser o 01 eu arrumo tudo, converso com o pessoal antes, tipo uma reunião, eu falo ‘ó, já que tem muita gente, vamo dividir o material e sair cada um prum lado, porque se for todo mundo prum lado vai demorar muito’. E às vezes alguns não gostam da divisão, e querem ir com outro que foi prum lado. Aí a gente conversa e fala que não, que é tudo a mesma coisa, a AR é uma pessoa só, não tem isso, ninguém é melhor que ninguém. Uma galera vai prum lado, outra pro outro, divisão de quatro, de três... Às vezes também, quando tô sozi-nho e dá vontade, eu vou, saio prá noite, sozinho mesmo. Teve uma vez que nós tivemos que dormir em cima da marquise. O local era uma casa abandonada, só que o pessoal que viu chamou a polícia. Chegaram três ou quatro viaturas lá embaixo e mandaram a gente descer, só que eles não viram a gente e nós dormimos dentro da casa. Tentaram até arrombar, só que a porta era de ferro - nós subimos pelo poste – e eles não conseguiram entrar. Eu dormi, não sei se o outro dormiu. Aí lá prás 6 horas acordamos, já não tinha mais nada, todo mundo meio assustado. Ainda bem, ninguém rodou.

A escolha do lugar
Nós já pichamos em vários lugares perigosos, lugares públicos, já dormimos em cima de marquises, já passamos altos perigos. Antes, dependendo do lugar, a gente vai lá e estuda o lugar. Se for um lugar que a gente sabe que vai dar muito ibope, por exemplo, a Prefeitura, o Mineirão, essas coisas, a gente vai no lugar de manhã, vê como que sobe, quantas pessoas tem, onde tem alarme e onde não tem, se tem cerca elétrica... À noite a gente vai, se der certo, tudo bem, se não dá... aí é problema. Há um lugar que foi o mais falado até hoje, que foi o Mineirão. Foi estrago mesmo que nós fizemos, deu muito ibope. Um lugar que é muito popular, todo mundo conhece, já foi filmado, publicado no jornal, todo mundo comentando, pessoas que não estavam nem aí pra pichação passaram a reconhecer, a conhecer a AR. Primeiro foi quatro pessoas comigo, depois foi três, que não deu pra terminar tudo num dia, nós voltamos várias vezes porque duas vezes apareceu o segurança, acho que foi só uma vez que não apareceu o segurança. A última vez, quando terminou, a gente não tava nem acreditando que era tanta pichação só nossa, o Mineirão todo. Sentamos lá fora, dentro do Mineirão mesmo mas no corredor, e ficamos conversando. Então apareceu três seguranças, um do lado, dois do outro, e nós tivemos que pular lá de cima do negocio... Eu já fui preso também, fui preso em cima do Odilon Behrens. O Odilon é quase dentro da favela, nós começamos a pichar e apareceu uma viciada e começou a gritar que ‘tava legal’, que era ‘muito doido’... Começou a chamar a atenção, aí o segurança do hospital viu, chamou a policia, cercaram o hospital, mais de dezesseis seguranças, não sei se acharam que a gente queria roubar alguma coisa... não tinha nem jeito de correr. Eu fui parar no DEON, era de menor ainda. Lá dentro... cadeia né? Cadeia é um lugar que não tem nem como cê explicar, só quem passa mesmo pra ver, apesar de o DEON ser uma cadeia pra ‘de menor’, lá você pode ver como que é a cadeia pra ‘de maior’. Cadeia é cadeia mesmo. Eu fiquei dois dias preso. Lá no DEON, tem que ir algum parente buscar, só que como eu não tinha parente disponível na hora, fiquei dois dias.

As outras galeras
Já tivemos muita briga com outras galeras. No Mineirão, quando é Atlético x Cruzeiro, junta a nossa galera, briga com as outras... A gente marca também, já marcamos muita briga na Savassi, no Centro, ou às vezes a gente juntava a galera e ia no bairro, brigava, riscava pichações, eles riscava as nossas... Isso foi no começo, quando a AR estava levantando, subindo de novo e não era tão respeitada igual é hoje. Hoje não tem isso mais, porque todo mundo já respeita. Eles passaram a ter medo, depois que começou a ser publicado coisas sobre nós, passou na televisão, eles viram que o local onde a galera se encontrava era perigoso, passaram a respeitar. E hoje quando a gente passa, o pessoal fica olhando, fica conversando... Quando a gente vai em danceteria o pessoal rodeia, às vezes a gente até acha que é confusão, junta todo mundo também, que se acontecer alguma coisa... mas é só pra ver quem é, ver a pessoa, conversar... Teve uma festa de rap na Pampulha, foi um encontro de vários pichadores. O pau quebrou. Só que eu não fui, eu não gosto de rap mesmo, e também avisaram muito em cima, eu já tinha uma coisa marcada. Hoje a gente não briga mais, as galeras já não encaram mais, porque, eu não sei, né, a maioria das galeras tem um temor muito grande da AR.

Ibope
O ibope é legal, é a mesma coisa de uma pessoa ser um artista, ser conhecido. Onde cê passa todo mundo conhece, respeita... Alguns tem medo, alguns acha que é bandido, traficante. Apesar de pichador também já fiz muito, já roubei também, já briguei, bati em briga com playboy, às vezes brigava à toa, bati à toa... só que tem muita coisa que falam que não é verdade. Muitas vezes já falaram que morri, só que até hoje, graças a Deus, estou vivo. As mina também, chegava em bairro de playboy, falava ‘alá o Seta, ó os meninos da AR’, aí já juntava, vinha dando mole, a gente pegava as mina e saía pra Fuzarca, Phenix, danceterias assim. Já ganhei dinheiro também pra pichar, umas cinco vezes já. A pessoa chegava perto de mim e falava ‘ah, picha aí, escreve tal coisa e eu te dou tanto’. Já ganhei lata de spray, várias coisas. Eu também fui brigar com um cara, vinte reais e uma lata de spray pra brigar com um cara. Teve uma vez que eu briguei sozinho e uma vez que a galera toda brigou. Eu fui brigar, não tinha motivo nenhum... foi uma encomenda.

A cidade
Eu passei a pichar de verdade mesmo, com mais vontade, demorava mais, levava mais material, quando estava mais nervoso. Às vezes eu saía, ia e pichava, saía nas marquises e tudo... era o meu jeito de dispensar a raiva que eu estava sentindo, os problemas, aí na noite eu deixava os problemas todos, de manhã já esquecia tudo. Aí era só verificar como que ficou as marquises todas... A cidade à noite é muito parada. A polícia comenta: ‘se tá na rua de madrugada é bandido’. A gente tem que ter muita atenção, com carro, as pessoas também, nós já corremos muito de polícia, pessoas já deram tiro pro nosso lado. Madrugada, né. Não tem lei de madrugada. Teve uma vez que nos estávamos pichando um posto de gasolina. Parecia que o posto funcionava só de dia. Nós pichamos o posto todo. Aí, quando nós estávamos indo embora, parece que o dono do posto saiu do quarto, já começou a atirar pro nosso lado. Nós corremos, távamos na BR, pulamos pra dentro do mato do outro lado da rua. Foi um dos perigos maiores que nós corremos.

Os Pichadores de Elite
Quando eu comecei a pichar eles ainda estavam pichando. Acho que os PE era uma galera da Galoucura. A maioria dos pichadores de BH são atleticanos, são poucos mesmo que são cruzeirense, mas são os playboy. Os PE eram só os melhores de BH, apesar deles também serem playboy, porque tinha dinheiro pra comprar lata, estas coisas. Quando eu comecei eles ainda tavam no auge, com o maior ibope, era só eles. Tinha o Paco, também, que pichou a maioria das igrejas do Centro, saiu na televisão, no Fantástico... Hoje em dia não é mais PE, é MB (‘Melhores de Belô’). São só os melhores que marcam MB. Igual o Ash, é MB. Aí no caso é assim, se uma pessoa da galera é MB a galera toda é MB. Tem as festas também, só que só vai atleticano, porque a maioria dos cruzeirense não pode ir, senão dá briga. O Ash também é da AR. Ele gosta de pegar muito as placas. Eu conversei com ele e ele falou que era um lugar que ninguém nunca tinha pego. Praticamente todas as placas de Belo Horizonte têm, está faltando uma ou duas, quando eu vejo uma que não tem eu falo com ele e ele vai lá. Muita gente acha, igual já comentaram comigo, que ele é playboy, perguntaram se trabalhava na CEMIG, ou se trabalhava com caminhão, que o pessoal levantava ele. Não, o transporte dele é só uma bicicleta. Muita gente achava também que ele saía com uma escada. Na madrugada não tem como sair com uma escada. Hoje, em atividade, deve ter na faixa de vinte galeras. Era mais, mais de cinquenta. Mas, também, isso tem época, quando todo mundo começa aparece até galera mais nova, aí essa cidade só fica sujão, ultimamente está ficando mais limpa...

Patrimônio
Eu não gosto de pichar igreja, eu acho um des-respeito, mas quando é um patrimônio público, por exemplo, o Pirulito, que é um lugar que o Brasil inteiro conhece, todo mundo passa por aí, é um lugar de destaque e pode não ter pichação nenhuma que se o cara pichar ele vai ficar falado um bom tempo ... nós ja pichamos lá, só que apagaram. Um lugar que todo mundo tenta pichar só que não consegue é a Prefeitura. Já pegaram várias pessoas tentando pichar, tentando subir, dormir lá dentro...

A polícia
Foram três vezes que a polícia foi lá em casa procurando o Seta. Como o pessoal da minha familia sabe que picho mas não sabe que sou o Seta, eles não sabiam informar e falaram que eu não morava lá (foi por causa que os meninos da AR começaram a traficar). Teve uma vez que eu estava com a camisa grafitada, escrito Seta, e os policiais pararam e erguntaram se eu era o Seta. Eu falei que não, que era uma camisa que eu ganhei de um amigo, só que não morava lá mais, e eles falaram que iam ficar de olho em mim, depois foram embora e não aconteceu nada. Procuraram o Ash também, quando ele pichou um avião da TAM...

Porque pichar
Pichação não dá grana, é mais adrenalina mesmo, quem faz gosta, quem faz pela primeira vez sempre volta porque acha legal, você passa perigo... muita coisa... Você fica com medo da polícia... O melhor também é quando você consegue dar o perdido, polícia corre atrás e você consegue despistar... Você fica mais excitado... Eu já passei aperto pichando em cima de uma marquise, eu e o meu amigo Ash. A polícia chegou e parou na frente da marquise, nós descemos por trás e dispensamos o material em cima da marquise mesmo. Passamos na frente dos policiais: eles olhando pra cima da marquise esperando a gente descer, ficaram mais ou menos meia hora esperando, nós ficamos a uma distância boa olhando eles esperando, rindo. Foi muito legal. Isso também que dá muita vontade porque, prá gente que mora lá na favela, polícia prá gente praticamente é o inimigo, mesmo pra que não mexe com drogas e não faz coisa errada. Polícia, se pegar de noite bate, faz maldade... nenhum favelado gosta de polícia. É legal você chegar assim num local e o pessoal tá assim: ‘nó, esses AR tão pichando’, ou então: ‘o Seta pichou não sei onde’, ‘quem é esse tal de Seta?’, e você escutando, isso é legal, como se fosse aquele negócio de menino, querendo ser super-herói e ninguém saber...


Entrevista Piero
Edição Fabiano

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