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“Cês
tão com medo desses meninos? Eles precisam de quê? É
respeito, só”
Entrevista com Ronaldo Ferreira Pinto , Supervisor Geral de Segurança
no CIA (Centro de Internação
do Adolescente) de Belo Horizonte
dezembro de 2001
FEBEM
Eu fui para lá porque a minha mãe na época tinha
uma dificuldade financeira, e ela me informou que a minha avó tentou
me matar quando eu tinha dois meses, então ela levou eu lá
no juízado, na Rua Timbiras número 1802 na época,
e me deixou lá e desapareceu. Desapareceu e só depois dos
21 anos que eu encontrei. Eu mesmo fuia trás dela. A minha passagem
foi primeiro pelo colégio de irmãs, que era um berçário.
Lá fiquei uns... três anos. Depois, fui lá pro Barreiro
em uma escola que era da FEBEM também, era um Centro de Triagem.
Regime fechado, muro alto, então para fugir, só se fosse
um bando de uma vez para fugir. Mas eu nunca pensava em fugir, eu queria
ser alguma coisa na vida, né, e eu sempre preocupava em ver minha
mãe, não conseguia de jeito nenhum, mandava carta, e não
conseguia de jeito nenhum. Lá eu fiquei só uns seis meses.
Aí depois eu fui lá prum colégio de padre em Uberaba.
A relação com os meninos talvez tenha sido um pouco mais
difícil porque eles sempre chamavam eu de “filho do governo”,
porque eu num tinha família, num tinha ninguém, e eu me
sentia até humilhado nessa época, de vez em quando eu chorava
lá, e rezava na igreja sozinho, pelo dia que eu ia ver minha mãe.
Aí de lá foi uns quatro, cinco anos.
Depois, quando completei quinze anos, quinze ou dezesseis, mandaram eu
prum colégio da FEBEM, né, em Antônio Carlos, a Escola
FEBEM Lima Duarte. Pra mim foi o mais duro… Ao invés de eu
passar o Natal e o Ano Novo em casa eu ficava lá sozinho, trabalhando,
né. E olha, um trabalho muito desgraçado, viu? E quando
acabava lá tinha que voltar pra escola, estudava. Lá era
um colégio tipo militar. Tinha alguns monitor que infelizmente
gostava de bater. Eu apanhei bastante mesmo, eu num posso negar não,
apanhei de borracha e muito, porque lá cê num podia reclamar
da comida, num podia reclamar de nada. Nós tinha que ser tudo certinho,
porque senão ficava de castigo...
E eu queria ver minha mãe e num conseguia de jeito nenhum. Aí
eu comecei a pensar muito, pensei até em fazer algumas loucuras,
na época, né. Eu queria sair dessa vida de ficar só...
eu queria fazer umas besteiras, mas eu pensei muito né? Eu pensava
em sair, em fugir, pensei em entrar na vida dos marginal mas segurei as
pontas e depois fui considerado o melhor aluno lá. Aí eles
me trouxeram de volta pra cá, né, aqui pra Belo Horizonte,
fiz curso de cozinheiro, garçom, no SENAC. Era pra eu ter ido pros
Estados Unidos, trabalhar de cozinheiro ou garçom... E eu fiquei
perdido na hora, eu falei assim: “eu num quero ir, eu quero ficar
no Brasil”. Aí o presidente da FEBEM na época falou
“ocê quer trabalhar com a gente?” eu falei: “quero”.
Quando eu completei dezoito eu fui contratado como monitor na FEBEM, lá
no Horto. E eu tou até hoje no sistema aí, trabalhando com
o coração aí, e vamo tocando a bola pra frente. E
hoje, eu peço assim, graças a deus, né, pelo trabalho
de monitor.
Se ocê chegar lá na minha casa, a primeira coisa que cê
vai encontrar é uma bandeira da FEBEM. Eles iam jogar fora, eu
falei “não, me dá aqui vai ficar pra mim”. Tá
lá na minha sala. É o amor pelo lugar que me fez. Porque
se eu não tivesse trabalhado eu poderia ser um bandido hoje, tranquilo.
Agora em 99 eu vim pro CIA, né. Primeiro foi no CEIP, nós
pegamos o CEIP com 117 meninos em situação de risco, abandonados
aí, todo mundo chorava, apanhava de muitos agentes aí. Aí
chegou eu, o Rômulo, né, e a Edna, que era superintendente,
conseguimos mudar a cabeça do sistema. O sistema era muito falido.
Hoje, graças a deus, nós estamos trabalhando com esses meninos.
Com a maior dificuldade mas trabalhando com amor, com respeito, né?
CIA
- Centro de Internação do Adolescente
Os meninos ficam de seis meses a 3 anos. Depende do comportamento deles
sair antes. Mas tem menino aí que tem que ficar 3 anos, infelizmente.
Os meninos daqui infelizmente são difícil. Esses daqui são
mais difícil. São mais perigosos. Têm disposição
pra qualquer coisa. Nós dividimos agora, né, pusemos alguns
adolescentes que têm um nível de periculosidade mais baixa.
Dividiu. Se um menino roubou um carro pra que você vai pôr
ele no meio dos assaltantes a banco? Então hoje, o juizado, o Ministério
Público, né, trabalham nesse sentido, pra que não
ponha esses meninos mais pesados com os menos. Porque aí se cê
põe um menino que roubou uma caixa de banana com um outro que é
assaltante de banco ele vai querer aprender a roubar também.
Nós tamos com 15 meninos aqui e 70 no CEIP1. Aqui tem várias
atividades dos meninos. Tem aula de manhã, aí depois do
almoço tem capoeira, de tarde tem um curso, à noite tem
um curso também. Então o que a gente tá fazendo pra
eles é ótimo. Agora, lá fora é que é
difícil. Um emprego... só de falar que cê tava preso,
num sistema assim, as portas fecham mesmo. Cê pode chegar lá
e falar assim “esse menino é bom, tranquilo, fez curso…
”, aí pergunta “onde ele tava?”, “ah tava
lá no CIA, no CEIP..” “ah, isso é negócio
de menor infrator”... Aí o menino revolta, aí volta
ao assalto mesmo, a matar, ou à droga...
A maior tristeza é chegar perto dos 21 anos, porque aqui é
dos 16 aos 21. A maior tristeza nossa é o desligamento quando chega.
O que vai ser do menino. Eu acredito que se começar lá debaixo...
se começar dos 16 anos pra cima, é muito difícil.
Adolescente hoje em dia, sabe como é que é. Já tá
feito, já é acostumado a apanhar da polícia na rua,
né.
Tem uns que nem quer ser desligado, não. Porque já sabe
que se for voltar, vai voltar pro crime de qualquer forma. Agora, muitos
têm valor. O valor deles é quando vêem a família.
O afeto pesa muito, quando a família não vem eles ficam
revoltados. Aí cê tem que ligar pra família, eu peço
pra família “por quê que não veio, vem amanhã,
vem outro dia”. Então eu acho que da minha parte, eles sentem
assim como se eu fosse o pai deles. Eles falam assim “ô pai,
ô paizão!”, então isso pra mim é orgulho,
né, uma pessoa que foi criada numa instituição que
infelizmente foi sempre massacrada, mas é um lugar de fazer muita
gente boa.
Eu fico bem quando eu ouço falar do Fernando Lopes, conhecido como
Baby, que era de lá, da Pedreira, chegou a dar tiro na mão
de pessoas, e hoje tá numa fazenda pela Igreja Batista, e hoje
virou outra coisa. Chegou até convite de casamento pra mim aqui.
Tem hora que a gente sente também a vitória, né,
porque isso foi uma vitória. A mãe dele também liga
pra mim de vez em quando, tá tudo bem, ele tá ótimo...
Eu num fui no casamento dele não, mas liguei pra ele dando os parabéns
pra ele, mas que seria bom se todo o mundo saísse bem daqui...Tem
um menino que tá até na gráfica, ele vai passar aqui
daqui a pouco. É o Michel. Eu tava de férias, e ele foi
desligado. Eu falei “nó, mas cadê o Michel gente?”
Foi desligado. Na mesma hora eu fui atrás dele. Consegui um emprego
pra ele aqui na gráfica, arrumamos uma escola pra ele, ele é
de maior, mas... mas ele pode. Então ele tá aí. É
um menino que eu achava que não ia conseguir lá fora. Mas
ele falou comigo essa semana, que a única pessoa que fez a cabeça
dele fui eu. E isso é muito importante. Pra mim é uma vitória.
Os
agentes têm medo
Porque adolescente sabe que não tem nada a perder. Agora, se eles
tivessem a consciência, né, de que as pessoas gostam deles…
Eu, e vários funcionários aqui gostam. Tem muitos funcionários
que nós consertamos aí. Nós tamos trabalhando com
eles sobre o medo. É esse o problema todo nosso aqui. É
medo. Olhar o adolescente com vista grossa é muito perigo. Então
o adolescente, se vê que cê tá com medo, aí
ele cresce. Cresceu, já era. Que nem eu, num tenho medo não.
Pode tá o que for, botando fogo em tudo aí que eu entro,
ué. Um dia eles puseram fogo nos colchão tudo lá
embaixo, tudo. Num conseguiu ninguém entrar. Me chamaram, eu vim
cá, conversei com os meninos, tirei eles tudo. E eles tavam com
vários chucho -chucho é um barril de ferro fininho- me entregaram
eles na mão assim. E os agentes tudo lá fora. Eu falei com
eles assim: “cês tão com medo desses meninos?”
Eles precisam de quê? É respeito, só.
Geralmente o pessoal comigo eles respeitam mais, né? Respeitam
os meninos. Mas nós pegamos situações muito difíceis.
Esse pessoal virava pro lado e falava que eu passava a mão na cabeça
dos meninos... isso aconteceu várias vezes. Tive até ameaça
de morte pelos agentes, funcionário daqui, mas eu fui firme até
o final. E hoje o funcionário daqui tem que passar por testes muito
violentos, sabe? Pra ver se ele tem algum problema na rua, se tem sindicância
no bairro onde ele mora, se ele já mexeu com droga, se ele já...
Entendeu? Então hoje a SAREMI, a psicologa, faz um trabalho muito
bom. De repente a gente tá trabalhando com um agente e não
sabe nem o que ele é! Foi difícil, viu, mas nós conseguimos
muita coisa boa aqui. Foi mandada muita gente embora... os que gostavam
de bater nos meninos... Hoje eu vejo que a mudança melhorou mil.
Hoje eles só entram dentro do alojamento depois de dez horas. Então
teve uma melhora muito boa, isso eu falo que teve. Precisa melhorar mais
é quando ele vai ser desligado. O nosso maior problema é
quando o menino vai ser desligado. Só. A gente tem que rezar muito,
pedir a deus que ele vá prum caminho bom. Tem um adolescente aí
que fez um curso de informática e ganhou um computador. Levaram
o computador pra casa dele, um empresário que deu. Diz que ele
deixou o computador num cantinho lá, e voltou pro crime.
Tem uma guerra também, né? Quem quer ser líder nessas
cadeias, penitenciárias tudo, tem. É, a liderança
manda muito. De repente o menino não quer fazer nada de errado,
mas só dele subir um degrau, falar que ele é o dono da situação,
isso pesa. Pesa demais. Hoje teve um adolescente que brigou com outro
aí. Brigou por causa de uma brincadeira boba, né, falou
que queria namorar com a mulher do cara, aí ele esperou passar
dois meses. Quando ele foi desligado aqui hoje, levou um soco na boca.
E aí eu fico até meio triste, pelo que acontece com esses
meninos.
O Sistema hoje tá falido
Porque todo mundo fala que o Estado não tem que olhar. É
a sociedade. É o município. Então fica uma briga,
e o adolescente é que sai o mais prejudicado neste sistema, porque
de mil, pode-se recuperar um. Nós tinhamos um menino chamado Ferrugem
lá, que ninguém queria ele. Levaram esse menino pra lá,
nós conversamos com ele e hoje ele é advogado. O Ferrugem.
Tem vários ex-internos que hoje são pessoas que podem estar
na sociedade. Todo o dia eu compro o Diário da Tarde, e eu vejo
reportagem: menino que foi morto, tá preso, tá lá
na Furto, na Tóxicos, né... a droga hoje comeu tudo, os
menino tão morrendo, tem bastante menino morrendo... Eu tenho acompanhado
isso aí há dezoito anos já. São dezoito anos
de sofrimento né?
Toda vez que morre um menino eu anoto lá em casa, pra registro.
Anoto, pego uma certidão de óbito, né, e vou guardando
ali. Nós podemos falar com todo o coração: prá
poder recuperar esses meninos hoje em dia precisa começar do começo.
Depois dos 16, 17 anos, é difícil. A recuperação
teria que começar por baixo. Trabalhar com a família, os
pequenininho que tão nascendo agora. Porque se não for trabalhar
com esses pequenos, sobre droga, sobre isso tudo, não adianta nada.
Hoje infelizmente as penitenciárias tudo lotada, pode ver, as delegacias
tudo lotada, não sabe nem onde pôr mais preso. Tudo lotado.
Isso foi o quê? Foi a perda. Não fizeram nada com eles quando
eram pequenos, aí vai virar bandido mesmo. Porque se tivesse trabalhado
com a família desde pequeno.. Eu passei lá em Antônio
Carlos, vários meninos que passaram por mim, hoje nós marcamos
um encontro, precisa ver que coisa linda. Teve um até que falou
assim “se eu fosse criado hoje eu ia ser bandido”. Hoje ele
é empresário lá do Rio de Janeiro. Ele tem 21 mil
empregados. E ele fez a festa nossa, esse empresário do Rio. Então,
eu falei lá “todo mundo tem que falar alguma coisa”
e foi uma coisa assim emocionante. Uma choração também,
todo o mundo tava chorando. Tinha mais de dez mil pessoas. Muitos num
foram, mandaram telegrama, sabe, mas foi uma coisa muito bonita, o encontro
de ex-alunos da FEBEM.
Então hoje em dia, infelizmente acabou a internação,
porque antigamente, a família, vamos supor, que nem no meu caso,
minha mãe não tinha condição de me criar,
me mandou pro colégio. E eu virei homem, graças a deus.
A
droga e o tráfico
Aqui, é porque eu sou o Supervisor Geral de Segurança, então
eu sempre dou uma geral nos funcionários quando chegam... de surpresa.
Nós nunca pegamos funcionário trazendo este tipo de coisa
não. Mas sempre nas visitas, traz dentro do iogurte, dentro do
saquinho de biscoito, então agora nós tamos dando uma geral
até mais profunda para evitar isso, porque o menino tá aqui,
a gente tem que respeitar ele, né, porque lá fora, infelizmente,
quem manda é os traficantes. Que vai dar salário pra eles.
E eles não aceitam arrumar um emprego pra ganhar 180. E eles já
falam que na favela eles conseguem 5000 por mês.
O maior problema desses adolescentes é a família. O pai
é alcoólatra, a mãe tá presa, o pai tá
preso, o padrasto arrebenta o menino. Então, pode chegar pra qualquer
desses meninos e conversar com eles “e sua família, como
é que é?” Ah, só tem mãe, ou só
tem pai, ou só tem num sei o quê, então a maior dificuldade
nossa aqui hoje é a família. Tem família que não
quer que libera o menino de jeito nenhum. Fala que se liberar vai voltar
pro crime. E volta. Eu conheço um adolescente, não daqui,
ele já teve aqui, ele batia na mãe, pra mãe arrumar
dinheiro pra ele comprar droga. Isso num é um só não,
tem vários casos. Eu fico pensando como que pode um dia mudar isso
aí? Tem que começar do começo. Cês vão
começar da metade? Quando já tão viciado em droga,
já tão viciado em meter assalto? Eu conheço um menino
que tá aqui, eu conheci ele, ele tinha oito a nove anos. Ele tava
lá na FEBEM comigo lá. Na hora que ele me viu aqui ele reconheceu:
“ô Ronaldo tudo bem, como é que tá?” “Quê
que cê tá fazendo aqui meu filho?” “Ah, eu fiz
20 assaltos.” Hoje ele tá com 15 anos. Se tivesse trabalhado
com ele desde aquela época... Se o menino não voltar pra
onde ele mora, consegue. Quem comanda o tráfico de drogas é
o traficante. Se eu mexo com drogas, e eu paro duma vez, o traficante
vai falar assim: “aquele ali é X-9”. Morreu um menino
há pouco tempo lá da Pedreira, o Dalmir. O tal de Foguetinho,
que morava lá no Buraco Quente. Então a primeira coisa foi
que ligaram pra mim, era um sábado, acho que foi dia 12, sábado
passado, ligou era duas da manhã. “Fulano de tal morreu”,
nossa senhora, aquilo pra mim é uma derrota. Eu me sinto derrotado.
Porque a visão da favela hoje é pesada. Tem muito menino
de oito anos que eu conheço que já anda armado. A gente
fica assim, olhando, “o quê que vai acontecer com esses meninos
todos aqui?”. De vez em quando eu penso lá em casa “puxa
vida, se eu fosse criado nessa época o quê que eu ia ser?”
Será que eu seria um bandido? Num sei.
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