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Entrevista
com Nielson da Silva Cadeião
é tipo uma penitenciária, mas não é uma penitenciária.
Só que tem mais vaga e o preso tem um pouco mais de mordomia. A
cadeia é um lugar pequeno, onde fica várias pessoas junto,
é aquele verdadeiro revezamento, onde é que um dorme, o
outro fica em pé, isso é a cadeia. O cadeião dorme
três, quatro, na mesma cela, mas dorme, entendeu? Cada um nas sua
jega, a gente chama de jega, é cama. A penitenciária é
um por cela. Você tem um pouco mais de privilégios. É
onde você pode sair de manhã e ficar o dia inteiro circulando,
dentro da penitenciária, tomando banho de sol e, à tarde,
você entra para dentro de sua cela de novo. E a penitencária
de máxima segurança, eles te soltam de manhã, você
toma três horas de sol, depois dessas três horas de sol, você
volta para a sua cela e passa o resto do dia preso. Preso que eu falo
é trancado, no cadeado mesmo. Ocê só vendo. A cela é três por um e meio. É pequeno, mas dá pra você viver. Eu, por exemplo, vivi três anos. Tem o boi – o boi é o banheiro - a jega é a cama, a pia é pia mesmo. Carcereiro é agente penitenciário. A gente chama ele de agente penitenciário. Normalmente nesses lugares assim não rola tortura. Onde rola é na cadeia, é na delegacia. Na delegacia tem o pau de arara que eles falam que acabou, mas não acabou porra nenhuma, tá tudo lá, só que tá tudo desmontado, de modo que se chegar a benfeitoria pública ou qualquer pessoa desse orgão aí, eles arrumam um jeito de tirar todos os vestígios. Então, quem vaiprovar que tem? Ninguém prova que tem, não tem como provar. Então, é a palavra deles contra do cara. Na máxima, a cela é totalmente fechada somente com a ventana, a capa da grade, a gente chama capa de grade porque ela é toda fechada e só tem a frente que é de grade forte. Não dá pra você ver do lado de fora não, dá pra você ver o pavilhão. Dá pra você ver tudo o que acontece dentro do pavilhão, do lado de fora você não vê nada, o máximo que você consegue ver, o máximo, é um pedaço do muro. Além do muro você não vê, nada, nem casa, nem rua, nada, só o muro. No meu julgamento, eu tinha advogado. Eu rodei com 3,5kg de cocaina. Dos 3,5kg, só apareceu 450g. Tive um bom advogado, meu advogado fez uma ótima defesa. Eu rodei porque fui alcaguetado mesmo, não teve jeito. O cara queria me vender um carro e eu caí na besteira de ir até o cara. Normalmente eu deixava o cara vir até a mim, aí nesse dia eu fui até o cara, eu fui mas já sabendo que alguma coisa ia acontecer e aí? Aí, o que que aconteceu? Fui e fui preso, acabou ali, minha vida acabou ali. Perdi minha mulher, meus filhos, minha casa, meus amigos, que ninguém foi me visitar durante três anos, perdi tudo. Perdi irmã, carro, tudo, tudo, tudo. Meu nomecaiu, falaram que eu era até viado. Depois, falaram que eu tinha três mulheres na penitenciária. Então, quandoa gente está ausente muita coisa eles falam, entendeu? O problema é provar o que que ele tá falando porquea gente não tem como se defender, a gente tá lá, eles estão aqui, eles falam o que eles quiser, né. Só que tem muitas pessoas de cabeça fraca que acredita. Na cadeia tem um faxina que vem levando a comida. A comida, é uma comida com uma cara boa mas sem interesse de capricho nenhum, quer dizer tem muita pedra, muito bicho, muita coisa. Mas quem bate o olho, mata porque ela vê uma comida aparentemente bonita, isso na cadeia. Agora, na penitenciária, é os presos mesmo é que fazem, então, a comida é mais decente, é uma comida melhor. Para falar para você a verdade é muito difícil muitapessoa aqui na rua comer uma comida boa igual na penitenciária. Isso é, com certeza, verdade verdadeira mesmo. Quando eu tava lá, não tinha refeitório não. Lá funciona o seguinte: se você tá no sol, você vai pra dentro da sua cela, aí vem o faxina do dia empurrando um caixote, dentro de cada pavilhão tem 60 ou 73 presos e vem, no caixote, 60 ou 73 marmitas. Aí o faxina vai empurrando, parando na sua cela e entrega pela padiola - a padiola é um buraco maior aonde é que dá pra você enfiar a mão - aí te entrega a sua comida pela padiola, aí ali você come. Agora, quanto ao respeito lá dentro, o respeito é mútuo. Então você é realmente respeitado, seja você quem for, porque são 73 olhos te vendo. São 73 pessoas olhando cada passo que você dá, você pode ser um malandrão, como um malandrinho, um menor, um cara insignificante. Não tem esse negócio de que o cara manda no pavilhão, não existe isso. Existe um cara que tem mais coragem. Esse cara que tem mais coragem costuma levar outras pessoas e essas outras pessoas não vai deixar um agente fazer covardia com esse cara, aí, vira um tumulto simples e comum ou uma rebelião. Com os agentes, tudo que rola é assim: sim senhor e não senhor. Se você quiser perguntar uma coisa, é sim senhor, é por favor senhor, mesmo que esse seja mais novo do que você. É um relacionamento de humilhação total, é humilhação total mesmo. As vezes rola uma briga, rola um desentendimento e, quando rola isso, é porque a maioria do pavilhão já consentiu que aquilo acontecesse. E os dois mereceram porque quando é uma pessoa boa, as duas tem conceito e um respeita o maior, então a maioria da penitenciária fica colocando pano. "Não, não faz isso, deixa disso", é a turma do deixa disso, como se fosse aqui fora. Mas se for dois vacilão, tipo esses caras que gostam de gritar mais alto do que os outros, se acham melhor, aí fica todo mundo torcendo que aparece um outro mais folgado do que ele pra poder quebrar a cara dele. Às vezes, o cara até paga pra poder quebrar a cara do cara lá. Com a grana, é o mesmo que aqui fora. Se você trabalha você tem o seu dinheiro, se você não trabalha, você não tem o seu. Então você vai ter que traficar. Lá dentro também rola o tráfico. Lá rola tudo, tudo. Rola crack, rola cocaína, rola maconha, rola tudo. Tudo tem lá dentro. Cigarro o seu parente leva. Cigarro é permitido, sua família leva, o máximo de dez maços. A humilhação da família pra poder visitar, a família passa por muita humilhação mesmo. Eu matava
o meu tempo desenhando, desenhando para família de preso. Desenhando
as mulheres de preso, desenhando os próprios preso, desenhando
artista de televisão, essas pessoas assim. Eu aprendi a desenhar.
Eu faço caricatura, meu interesse é fazer bem. Eu tenho
que fazer um retrato e alguém olhar para o retrato e falar assim:
"Ah, é fulano.", não pode perguntar quem é.
Se perguntar "quem é ?", aí já não
vale pra mim. O retrato tem que ser igual, de alguém chegar e olhar
e falar assim: "é fulano ou siclano", entendeu? Só
que tem um tempão que eu não desenho mais. Tinha a minha
televisão na minha cela. Quando tava entediado, eu ligava a televisão.
E eu corria lá dentro, é três metros, então,
eu ficava correndo, indo pra lá e voltando, indo pra lá
e voltando, indo pra lá e voltando, me exercitando, porque senão
eu ia ficar só deitado. Eu tinha três horas de sol por dia
e essas três horas de sol é muito bem aproveitada, a gente
joga bola no pavilhão. A bola que a gente Na penitenciária, na cadeia, a gente vive do ontem: "eu era", "eu fui", "cê acredita?", "vai ser", entendeu? A gente vive mais do ontem e do que vai vir. Aquele dia, lá na penitenciária, não vale nada, a gente nunca conta ele. A gente conta a semana como se fosse um dia. Todo sábado vale um dia pra nós lá dentro porque é o dia que vem a visita, o dia das esperanças, é o dia que a gente fica sabendo como é que está a situação jurídica, embora a gente tenha o penal, que é onde o preso vai pra poder saber da situação dele. Porque era assim, é assim até hoje. A maioria dos presos pensa no amanhã e no ontem. E assim, as horas vão passando. Vai passando horas, horas, horas, horas e horas, semanas, meses, você contando o mesmo assunto, o sonho, como é que foi. Quando você sai do pavilhão todo mundo fica na expectativa. Ou você foi caguetar alguma coisa, de droga ou qualquer coisa assim, ou o advogado veio trazer alguma boa notícia. Só com essas duas coisas que você sai do pavilhão. Ou pra ir no médico. Lá tem um bom tratamento de médico, dentista, odontológico, lá tem um bom tratamento. Eu era o recordista de cartas do pavilhão porque todo nome que eu via na televisão de pessoas importantes ou, de algum assunto que me interessava, eu escrevia carta para a televisão, pedia o nome daquela pessoa e eles retornavam a carta pra mim. Algumas retornavam, depois de seis meses, ou cinco meses, ou dois meses. Pra nós, é uma esperança muito grande, então, dois meses, quando chega uma carta, é motivo de você pular de alegria. É outra coisa que a gente tem gosto dentro da cadeia, é quando chega carta. Lá no pavilhão era toda quinta- feira. Então, quinta-feira era o dia que todo preso ficava com o coração assim: "será que vai vir pra mim?", "oh, meu Deus do céu, e agora? será que vai vir?". Aí, chega o agente com o envelope, ali senta todo mundo e o cara entrega o envelope pro faxina e o faxina espera todo mundo entrar pra dentro da sua cela e vai passando " Fulano de tal, tem carta" aí, vai. Ali é a alegria do preso, pra saber como é que tá o mundo aqui fora. Eu sempre tava colocando a minha mente em andamento, eu não podia ficar parado, nem pensando mal, eu não podia pensar em traficar, nem em matar ninguém, que eu tinha que pensar em como sair pro lado de fora e readquirir minhas coisas, meus bens. Eu sou materialista, eu gosto de material, eu gosto. Então, eu passei os meus três anos lá pensando como que eu ia me levantar, o que que eu ia fazer honestamente, sem prejudicar ninguém, pra ganhar dinheiro porque ganhar um salário mínimo, isso não ia me satisfazer não. Não vai mesmo. Eu gosto de um carrão, agora eu tenho um monza tubarão, bonitão, tenho uma CG 99, estou bem, mas lá dentro eu não tinha nada, eu não tinha nem roupa pra vestir, então, eu ficava pensando como que eu ia conseguir essas coisas, sem ter que voltar pra lá. Ir pra cozinha é um cargo muito concorrido lá na peninteciária. O seu comportamento e o tempo de cadeia e, a tua profissão determinam se você pode ir pra cozinha, tá lá na ficha, o que você faz ou o que você deixou de fazer. Quando você vai preso, eles já checaram o seu comportamento. Todo mundo quer ir pra cozinha. Além de ter o melhor salário porque lá você não gasta com nada, você não pode comprar nada, não tem nada pra vender, gastava só com droga mesmo, balinha, custa dois real a balinha de maconha.A droga entra das duas maneiras. A polícia leva e a visita também leva. A polícia já sabe quanto é que vende, quanto é que dá. No meio de mil e tantos presos, tem um que conhece algum agente. E tem vários que tem dinheiro, vai lá e oferece pra o cara "te dou tanto pra você trazer isso pra mim", o cara ganha tanto que ele fala "nossa mãe!", não tem jeito, traz mesmo. Um trabalho que eu fiz lá, de privilégio, é cozinha e capinar do lado de for a do pavilhão. Quem tá nesse trabalho, tá feliz da vida porque consegue andar muito, consegue andar além do pavilhão. Agora tem costurar bola, tem tapeçaria, tem várias coisinhas assim, né, que dá um troco. Então, uma pessoa trabalha seis meses, consegue juntar um dinheiro, depois pede à visita "traz isso pra mim, traz aquilo" - um prestobarba, um sabonete, essas coisas assim de uso pessoal, alguma coisa você tem que fazer pra ganhar dinheiro pra poder se manter. Tive três chances de fugir, mas aí não fugia. A primeira vez porque tava perto de eu ir ao julgamento e, como eu já tinha comprado o condutor ˆ condutor é o cara que me prendeu - não precisou eu fugir, a testemunha de acusação se apaixonou por mim e passou a bancar a minha cadeia também, aí foi indo. Então, não precisou eu fugir da primeira vez, de nenhuma das três vezes. A rotina do dia-a-dia na penitenciária é um pouco diferente da cadeia. Na penitenciária, se o seu sol ˆ tem dois horários, um dia o sol tá de manhã, outro dia, o sol tá à tarde, pra não dar confusão entre as duas turmas. São 73 presos, divididos em dois, são dois andares, parte de baixo e a parte de cima. Aí, na parte da manhã, de um dia, solta a parte de baixo, aí, cê fica das 8 horas da manhã até 11 horas no sol. De 11 horas você é trancado, almoça, de 2 horas da tarde até 5 horas da tarde é a parte de cima, aí, a parte de cima sai e fica até às 5 horas. O dia-a-dia é o seguinte: Você acorda, se o seu sol for de manhã, você acorda de manhã cedo, umas duas horas antes, faz um exercício, um aquecimento, toma um banho gelado na própria cela e fica esperando eles te soltar. Aí solta, você toma o banho de sol, joga bola, conversa com quem você tem que conversar, bate um papo, essas coisas todas até dá nan hora de trancar. Na hora de trancar, vem os agentes e tranca um por um, porque eles não é bobo de trancar todo mundo junto. Depois que trancou, 11 e meia, meio-dia, vem a cascuda - a cascuda é a comida. Aí você acaba de comer e vai assistir "Globo Esporte" que a maioria do pessoal gosta de futebol. A maioria também tem televisão e os que não têm televisão, respeita aquele horário. Então, naquele horário, todo mundo fica em silêncio, um bocado fica vendo televisão, um bocado fica dormindo até no outro dia de manhã. A rotina é essa. Vai dormindo até esperar a hora da janta mas na janta o cara acorda, janta e vai dormir de novo. Lá ninguém tem nome, lá tem número. Eu, por exemplo, era um número, o cara gritava eu pelo meu número. O outro, era outro número. Pra conversar, gritava pelo número porque é difícil, dificilmente a pessoa sabe o nome da outra. É a cela: "Ô, 44, Ô, 29, Ô, 32". "Fala, 50", e aí vai. Aí, você vai sabendo do que está acontecendo, aí pergunta: "Ô, você tá vendo televisão? Põe em tal canal", aí vai sabendo a notícia do que aconteceu para ter mais um assunto para conversar até 5 horas. Aí, 5 horas, você vai pra dentro da cela de novo, que a outra turma já entrou, você entra pra dentro da cela e aí acabou o seu dia. O dia passa assim. A não ser na quinta-feira quando você fica na agonia, na angústia de esperar carta chegar. Eu vi muita morte lá dentro lá. Isso rola, as mortes, desde aqui de fora. Às vezes você faz mal pra uma pessoa, ou cagueta, ou é um inimigo, ou estupra alguém e vai preso. Anos depois, essa pessoa também vai presa. Só que essa pessoa que vai presa tem muitos amigos, muito conhecido, pessoas extremamente perigosas, você tem que saber exatamente o que que você vai falar, cada vírgula, porque uma vírgula, mal colocada, pode se tornar uma frase muito perigosa. Então é bom você evitar, mas se você evitar demais você tá com medo, se você tá com medo, você deve. Então você tem que conversar exatamente, ou melhor, como diz o vocabulário, você tem que ser o que você é mesmo. E sabendo falar porque se você não souber falar você morre mesmo. Igual eu vi um caso lá. As pessoas se dirigem a você com um respeito extremo, seja você quem for. Porque são muitos olhos em cima de você até que você prove que você é um pilantra, um caguete, um estuprador, uma pessoa assim que ninguém gosta, todo mundo é obrigado a te tratar com total respeito, pode você ter roubado uma galinha e você pode ter matado 500 mil pessoas, não importa, você é a mesma pessoa lá dentro. Você vai perceber pessoas conversando com você, você vai falar assim: "Pô, será que fulano tá com medo de mim?", mas fulano tem muito mais homícidio do que o seu. Então, você tem que ter muito, muito, muito, muita papa na língua pra falar as coisas porque todo mundo fala manso, com respeito. Quando mata alguém, rola no pátio, sempre no pátio, quando rola uma rebelião. Por exemplo, o almoço todo dia tá vindo ruim, tá vindo sem tempero, isso já é motivo para uma rebelião. A tua visita tá sendo mal tratada, já é motivo pra outra rebelião. A pessoa vira traficante na favela. Ela vai vendo o dia- a-dia da favela, como que acontece, quem é quem, como é que entra dinheiro, as dificuldades que ele passa dentro de casa, a mãe, a comida, o amigo vestindo uma roupa legal e ele com a roupa toda remendada e aí ele já vira uma criança, já cresce e aí já vai tendo outra cabeça, outra mente, já quer uma roupa legal e acaba de uma maneira sutil, sem perceber, envolvido no mundo das drogas. E aí ele vai crescendo, acaba na penitenciária, na penitenciária ele conhece pessoas. Os amigos dele aqui fora caba ficando com a esposa dele, a mãe dele acaba apanhando, essas coisas todas. E aí vai indo, vai indo, até ele sair da penitenciária. Olha só pra você ver, eu escrevi esse livro lá dentro. O livro que eu escrevi fala de um cara parecido com o que está acontecendo na minha vida hoje. O final do cara, ele termina numa casa, olha pra você ver, eu tava preso, ele termina numa casa, com uma mulher bonita. Longe de tudo e fica feliz. Eu acredito muito, muito, muito em Deus. Tenho muita fé em Deus. A minha família é evangélica, daquelas fanática, fanática. Se o pastor falar: "Você tem que matar o seu filho pródigo pra poder ir pro céu", minha mãe passa a faca sem pensar, sem pensar duas vez, sem pensar se vai sofrer ou não. Minha mãe é tão fanática que o pastor virou pra ele e falou assim "Olha irmão, a gente não pode ter lembrança de falecido", ela rasgou todas as fotos do meu pai, todas as lembranças, eu não sei como é que meu pai era. Minha mãe é do tipo que, se você der um peido, ela te fala: "Ó, Deus vai te castigar, hein!". Então eu tenho medo de me envolver com qualquer tipo de religião. Eu acredito muito em Deus, mas religião eu tenho pânico, eu tenho pavor. Na macumba, eles falam que o pessoal vai lá e quer fazer o mal pra poder prejudicar a pessoa e o outro fala que quer fazer o bem pra poder ganhar dinheiro. Se quer fazer o bem pra ganhar dinheiro, então porque ele não ganha pra ele, vai fazer pro outro? Então, esse negócio de religião, eu acho que quem vai me salvar é Deus, não é religião. Lá na penitenciária eu era linha de frente de um culto lá. Mas quando o pessoal começava a falar "aqui nós vamos chamar de igreja", eu virava e falava assim: "Não, igreja o caramba. Aqui nós estamos orando porque todo mundo precisa de Deus, não tem esse negócio de igreja, que nós vamos seguir isso, que nós vamos seguir aquilo não, nós vamos ler qualquer parte da Bíblia, cada um vai ter a fé que quiser e pronto. Se você quiser ler a Bíblia mas acreditando no Satanás, então vai fundo. Se quiser ler a Bíblia e acreditar naquela cadeira ali, então vai fundo. Ninguém proibe nada a ninguém, você vai fazer o que você quer, mas se vim falar que é de uma religião, que nós tamo fazendo isso ou aquilo conforme a religião Deus É Amor ou qualquer coisa, o bicho vai pegar". E pegava mesmo porque eu, na hora do culto lá, toda sexta-feira, eu não admitia esse negócio de igreja. Eu acredito que existe um Deus, mas esse negócio de ir pra igreja, ou ir pro centro, ou ir pra isso ou aquilo, não me chama não, não me convida não. Eu vou na igreja, mas eu não vou ir na igreja por causa da igreja, por causa da religião não. Eu vou por causa... eu acho que aonde tiver aquela muvuca falando o mesmo nome de Deus, eu acho que é melhor. Mas negócio de igreja, frequentar igreja, isso aí eu não. Lá
ninguém nunca sai na segunda-feira. E na sexta-feira eu tinha batido
em um agente. O agente tinha mandado eu tomar na buceta da minha mãe,
aí eu peguei o agente na primeira oportunidade que eu tive e dei
nele um pau. Aí eu já tava lotado pra ir pra solitária,
ou então o major ia mandar me escamar eu. Eu já tava sabendo
disso, já sabia que o bicho ia pegar pra mim, alguma coisa de ruim
ia me acontecer. E, na segunda-feira, você não vai no médico,
você pode morrer que você não vai no médico.
Você não vai no advogado. Segunda-feira é um dia que
não existe, na penitenciária não existe. Então,
segunda- feira só se você tivesse morrendo mesmo e todo mundo
visse e chegasse lá e olhasse assim "ó, esse aqui"
aí, você ia. Se você quebrasse um braço, ou
a perna, ou arrancasse a cabeça e desse pra colar até terça-feira,
com certeza ele ia fazer isso. Aí deu segunda-feira, eles cantou
a minha pedra, aí eu falei "Nossa Senhora!". "Quarenta
e quatro, cela quarenta e quatro". Eu tava no pátio, jogando
bola e eu falei assim: "É gente, é agora". E todo
mundo já sabia que o bicho ia pegar pra mim. Aí os cara
falou "Nielson ó, até 2 horas, se você não
chegar, nós sacode a cadeia". Sacudir a cadeia quer dizer
todo mundo balançar a capa da grade, pedi pra mim voltar porque,
passou de 2 horas, é porque eu tava apanhando, já tava entrando
no pau. Aí era pra chamar o major ou então sequestrava,
fazia uma rebelião lá. Aí, eu não tô
sabendo porque na sexta-feira também eu já tava sabendo
que meu pedido de progressão de regime tinha sido negado, então
minha cadeia tinha sido confirmada em 6 anos mesmo, sem choro, nem vela,
quer dizer, eu tava pagando dois [anos] e dez [meses], então faltava
um e dois, um ano e dois meses. Aí o que que aconteceu? Ele virou
e falou assim "Mão pra trás". Aí você
põe a mão, ele algemou, me algemou e me levou lá
pra lá, pra fora, eu pensei assim "Nó, tô na
merda!". Mas já fui já com o corpo preparado, tava
jogando bola, então já tava me aquecendo pra poder entrar
na mutamba. Eles batem com um pedaço de mangueira molhada, amarrada
em um pedaço de pano, aí não dá hematoma,
só machuca por dentro, só dói. Aí o que que
acontece? Tô indo com |
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