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GRAFITEIROS & QUADRINHEIROS
Moacy Cirne*

Em dezembro de 1995, em Belo Horizonte, surgiria uma revista alternativa capaz de marcar os quadrinhos brasileiros. Desde 1972, quando o Balão mudou a face da nossa HQ mais combativa, e depois das experiências de O Bicho, ainda nos anos 70, e Circo1, nos anos 80, não víamos nada igual. Uma revista que, partindo do que melhor tínhamos na contracultura dos anos 60/70 – por exemplo, uma certa libertinagem crítica e criadora –, procurava se moldar com ousadia para tentar uma nova formulação gráfica e temática. Procurava e ainda procura, acrescentemos. Uma revista que se quer experimental nunca se esgota em sua busca permanente por novas formas e novos conteúdos.
Uma revista que, em sendo independente, só mostrava – e mostra – ter compromisso com a qualidade plena do material publicado e, conseqüentemente, com a sensibilidade do leitor. Decerto, não qualquer leitor, mas um leitor antenado com as novidades do mundo gráfico, político e artístico que nos cerca. Nestes tempos dominados por uma verdadeira ditadura da mídia e da merdiocridade, nada mais difícil do que bancar um projeto alternativo capaz de apostar num público diferenciado. Capaz de apostar, em síntese, num Brasil fora dos parâmetros oficiais do Pensamento Único Macdonaldizado pelo Neoliberalismo.
Com o sugestivo nome de Graffiti, a revista mineira (prometendo 76% de quadrinhos) tornou-se mais do que uma grata surpresa, mais do que um veículo de novas revelações quadrinheiras para todos nós. Tornou-se um empreendimento editorial que, ao beber na fonte da contracultura (reciclando-a, pós-modernizando-a, a bem da verdade), apostou na mais pura criatividade, sem medo de errar, sem medo de ousar, sem medo de radicalizar. Seu número zero já proclamava: “A revista nasceu. Está viva e aberta apara HQs, arte, cinema, literatura, música, grafitismo. Queremos publicar novos e jovens quadrinistas, incentivar a pesquisa e a produção de quadrinhos no Brasil. Queremos trocar idéias e figurinhas, provocar, propor, despertar paixões e talentos”.
Algumas palavras, aí colocadas, dizem do papel da Graffiti: pesquisa(r), provocar, despertar paixões. Poder-se-ia acrescentar Oswald de Andrade: “Ver com olhos livres”. A rigor, a pesquisa, a ousadia e a provocação deveriam constar de qualquer projeto que pretenda ser novo, que pretenda chutar para a lata de lixo a mesmice dos acomodados, que pretenda despertar paixões necessariamente intensas. Como fazem os criadores de Graffiti. Como fazem, em Minas, poetas do porte de um Sebastião Nunes.
Uma revista como essa que, de modo produtivo, abre espaço para o experimentalismo de uma história como Inseto, com sua linguagem gráfica à beira da poesia visual, que é capaz de surpreender temática e formalmente com João Tomba-Velha, ou com a inusitada Tinhoso strikes again!!!, ou ainda com Gemina (com seu feroz neo-expressionismo), que une no mesmo espaço narrativo as mais diversas referências mitológicas como em Último vagão, ou que revela o talento inesgotável de um Luciano Irrthum, não é uma revista qualquer2. E que, para completar, apresenta entrevistas & encartes da mais refinada expressão jornalística, ora com músicos (Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal, Itamar Assumpção, Jards Macalé), ora com quadrinistas (Luiz Gê) ou cineastas (Peter Grenaway), revelando ao leitor uma salutar multiplicidade de idéias & combates.
Dissemos que seu nome é sugestivo. E o é por explorar, criativamente, verdadeiros grafitemas. Aqui, numa leitura de evidências semióticas, o quadrinho é grafitagem, é grafitismo, é grafipoesia. Neste sentido, é um avanço sobre experiências anteriores, inclusive sobre fanzines3, embora devamos render homenagem a três grandes artistas de São Paulo que, há algum tempo, produzem uma HQ radicalmente inventiva: Luiz Gê4, Marcatti e Mutarelli, e que fazem parte de outro universo criativo, mesmo sabendo que existe um denominador comum entre eles e a publicação mineira – a inquietação e a procura de uma linguagem brasileira que, em sendo múltipla, em sendo variada, seja capaz de se identificar com as nossas ilusões, as nossas esperanças, as nossas frustrações, os nossos abismos.
Um mosaico/painel/colagem de grafitemas aberto ao delírio criativo, assim como, eventualmente, à contensão gráfica e mesmo a um certo amadorismo formal, quando necessário. Sem dúvida, Graffiti já conquistou o seu lugar na história dos quadrinhos brasileiros – uma história de lutas, de vitórias, de recuos, de desafios, e que sempre teve em Minas um espaço privilegiado de atuação criadora. Que o digam, entre os clássicos, Ziraldo e Henfil, além de, numa certa perspectiva, LOR, Nilson Azevedo5 e Mozart Couto; entre os alternativos, Marcos Coelho Bejamin6 e José Ronaldo Lima.
A presente coletânea diz da importância de Graffiti na história do nosso humor gráfico, sempre rico, mesmo quando corre o risco de se perder nos labirintos da paixão de seus idealizadores. Leitores e/ou criadores, sejamos todos grafiteiros. Façamos por merecer a linguagem aguerrida de suas páginas.

*Moacy Cirne, professor da UFF (Niterói, RJ), é autor de Quadrinhos, sedução e paixão (Vozes, 2000).

1 O Balão e Circo foram lançadas em São Paulo; O Bicho, no Rio. Das três, a primeira respondia editorialmente ao momento mais radical da contracultura: nunca chegou às bancas de jornal. Registre-se também algumas iniciativas isoladas, como a mineira Meia Sola, a paranaense Casa de Tolerância e as cariocas Vírus e A Esperança no Porvir, entre outras.

2 Decerto, há outros nomes e outras histórias que fazem de Graffiti a melhor revista de quadrinhos brasileira, no momento.

3 Seria Graffiti um fanzine de luxo? Claro que não, embora tenhamos, nos dois casos, a mesma “garra, criatividade e acidez” (cf. editorial do núm. 1).

4 Luiz Gê anda um pouco sumido, como aliás anotou a própria Graffiti, em seu núm. 5.

5 Poder-se-ia dizer que LOR e Nilson também seriam alternativos, pelo menos politicamente.

6 Lembrado pela Graffiti no núm. 3.

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