Eu sinto
muito que num pude estudá porque eu já nasci de família
pobre. Meus pais, os meus avô num estudô, ninguem estudô.
Nasci naquele tempo, em 33. Pensa pra você vê, uma pessoa
que nasceu em 1933... foi lá, foi índio que nasceu dentro
do mato, num tinha discussão não, eu ainda sô desse
lugar, eu nasci lá. O Brasil foi descoberto que tinha índio,
tinha habitante aquele Brasil, eu num sei se é verdade porque eu
num estudei, num sei se é verdade. Mas eles fala que tinha era
índio, ‘nton o Brasil num era inteiramente sem inteligência,
tinha índio. Aí esses índio, donde é que veio
esses índios? Já tinha habitante, já tinha gente.
Já tinha brasileiro aqui, índio brasileiro. Pedro Cabral
disse: Eu descobri o Brasil! Pode tê descoberto pra explorá,
mas pra vivê? Que naquele tempo que num tinha descoberto talvez
era até melhor... Que Deus andava nesse lugar olhando tudo, Deus
dava todo conforto e nóis hoje com essa pobreza. Entendeu o meu
dizê? Depois que foi muito descoberto, descobriu muita coisa pro
povo vir, querendo avançá demais, ganhá demais. Pra
você vê bem.
Nesse lugar que eu morava, que é aonde é esse municípi
de Maria da Cruz, ia de barco pra Januária. E tinha o barco que
era a vapor. (Conhece o vapor? Vapor.) Tinha um vapor que transportava
as coisas da Bahia, lá de Son Salvador, esse mundo aí pra
baixo que eu num conheço que também nunca fui, vinha transportando,
vinha o vapor e ia ate Pirapora. O vapor vinha de lá e foi construindo
Januária, foi construindo Maria da Cruz e aí Januária
foi mais adiante, foi mais pra frente. Maria da Cruz ficô mais atrasada,
o municípi era o de Januária. ´Ntón tudo cá
era tudo Januária. Depos eles municipô Maria da Cruz, que
é uma cidadezinha, municipô e foi separado de Januária.
Januária pelo lado de lá do Rio São Francisco e Maria
da Cruz pelo lado de cá. Antes de municipá, o lugar chamava
Mangaí, é a divisa de outro municípi. Municípi
de São Francisco com Januária. No lá municipá,
ficô sendo Maria da Cruz e São Francisco. É um riozinho
que corre lá e separa os municípi. Chama Mangaí.
Lá deve tê uns quatro, cinco mil habitantes, é muito
bem grande lá, cresceu bem.
A
PONTE DO LUGAR
Maria da Cruz é do lado de cá do Rio e Januária é
do lado de lá, que tem a ponte que ‘travessa. Tá com
quatro anos, justamente. Antes tinha as lanchas que ‘travessava
os carros, fazia era fila de carros. ‘Travessava de cá pra
lá, pro outro lado de lá tinha estrada. Tornava do lado
de lá, ficava parado e ‘travessava nas lanchas, lanchona
assim, como um navio... fala balsa, né? ‘Nton saía
num movimento muito bom, qué dizê, alí muita gente
vivia daquilo. Vendia um biscoito, vendia um peixe frito, vendia uma coisa
assim, por conta da balsa, era uma beleza. Cê ia lá pra Januária,
cê vinha de Januária, a mesma coisa: parava lá e tornava
aquela fila de carro, ia entrando, desse jeito. Com a ponte, cabô
esses abrigos, vendeu o peixe frito, vendeu essas coisas. Muita família
vivia daquilo ali, daquela beira de Rio ali. Agora, passô na ponte
e vão ‘mbora pra Januária. Aquele dinheiro que a gente
pegava ali cabô. Passa por fora.
A
TERRA
Lá tem muito fazendêro. É fazenda pro povo tocá
serviço, criá gado, prantá... Tem muito lugar que
tem irrigação, pranta lavoura, pranta tudo. Lá eles
planta feijão da seca, pranta pranta das água, pranta tomate,
faz irrigação, que lá é perto do rio tanto
que pode puxá. A água é muito rara. Lá tá
fartano é os homens lembrá que precisa trabalhá.
Os maior homem, que tem força, que pode tocá serviço,
estão mexendo só com criação de gado. Num
qué. Segurô a terra, terra boa, terra especial, tem água
nesse Rio, no São Francisco e tem a água do Mangaí,
que eles podia fazê um grande progresso no lugar. Eles num qué
fazê, eles podia é fazê, era quem podia fazê
para rendê mais... Eles fala, queixam que é porque diz que
vende barato. Que o governo qué que faz... Eles querem dizê
assim que o governo qué que eles gasta e tudo, paga imposto e tal
num sei quê, num sei quê... Vende mucho baratinho que num
dá pra eles tirá. Eles querem dizê que num compensa
pagá um impregado.
Para você vê: um funcionário mexendo com a lavoura,
mucha lavoura, mexê com um grande serviço de lavoura, gasta
muito serviço, mucha gente, né? Para, no final da safra,
eles tira é muito poquinho, num dá para eles pagá
os imposto e tudo e sobrá para eles, então eles num qué,
né. Eles cria é vaca, cria é boi, cria este trêin...
cria o bizerrinho curió, soltó lá, dá pouco
trabalho... Eles qué é isso. Aprica a injeção
nele. Aprica vacina e tudo. Paga um vaqueiro um salário. Paga um
tratorista pra limpá as manga, fazê tudo. Quando dá
no fim do ano, quanto que ele num tem lá no bolso? Eles qué
é isso.
E num tá assuntando que isso está fazendo numa maneira que
... tá morrendo... num morre gente de fome, mas tá rôbando
gente, tá matando gente pra robá. Eles num tá assuntando.
Num tá lembrando que está fazendo essa ruindade. Mas é
isso. Por quê? Quem pode tocá o serviço e mexê,
tudo bem. Quem num pode? De quê que ele vai vivê? Ele tá
com fome, ele num tá aguentando... tá morrendo de fome,
está vendo a criança com fome, qual é o destino dele?
Que num tem onde trabalhá. Eles segura a terra, que está
com ela segura, o capital deles está seguro, então que é
que faz? Eu num posso trabalhá, eu num tenho capital para eu podê
enfrentá a roça, eles seguraram a terra lá e num
me dá. O que vai fazê com essa criançada toda? Sabe
que uma coisa que nóis num dá jeito é nesses fazendeiros.
A
FAMÍLIA
Agora você vê, um pai que nem eu, criei meus irmãos,
depois que estava criado, eu casei, a mulhé adquiriu quinze filhos.
Nóis vive hoje, nóis está com quarenta e cinco anos
de casado, tudo criado esses filhos, o caçulo, o filho único,
está com 16 anos, está lá criado. Também comi
o pão que o diabo amassô. Trabalhei dia e noite, dia e noite,
domingo o dia todo... Para mim nunca teve dia Santo, nunca teve folga.
Vim folgá depois que aposentei que eu falei agora num ‘guento
mais, num ‘guento mais... tô obrigado a pará.
Era assim: no mês de maio, começava a pôr arroz, a
roçá, roçá a roça, adubá...
Naquele tempo num tinha negocio de tirá carvão não,
era roçá, derrubá o mato, picá e por fogo.
Virava um roçadão aí. Aí quando dava o primeiro
de outubro, planta primeiro algodão, passava a mamona, as carreira
de mamona... porque naquele tempo que nóis mexia, vendia a mamona,
que dizia eles que a mamona era pra fazê azeite pra lubrificá
os tanques de guerra. Mamona dá muito oleo.
Mais eu já sofri muito, num estudei, num sei lê, num sei
escrevê, num sei nada. O negocio é trabalhá. Trabalhá.
Mais eu já enfrentei dureza, assim no machado, rachá a madeira...
Todo tempo todo. Pensá assim: a pessoa trabalhá tanto, ele
num tem nem apetite nem de comê mais, ele num tem força,
num tem vontade de comê, acabô demais, esgotô a força,
esgotô os nervo, o destino dele arrasô que ele ficasse sem
‘guentá, tremendo assim... Muchas vezes eu ficava assim,
tremendo... Tomava uma água de açúcar pra mim guentá
trabalhá. Pra num vê meus filhos sofrê fome. Já
fiz. Isso já aconteceu muitas vezes. Trabalhá um dia todinho
apegando com Deus, ir lá na água, bebia um copo de água
e trabalhava limpando roça, pra num vê os filhos sofrê.
Isso eu já fiz mutchas e mutchas vezes. O dia amanheceu, o sol
estava lá às sete horas, ‘nton tem que trabalhá.
A
IGREJA
Tinha sempre a igreja, aonde tinha missa, em tal lugar nóis ia
assim, nas casas, nas fazendas. Aí os padres ia lá, dizia
uma missa pra mostrá aos meninos, mostrá às pessoas
o que era um padre, nóis ia lá, assistia à missa.
Era uma festa, mandava batizá um menino, tem um bucado de menino
que batizô pra tirá o registro deles, o batistério
deles. Tinha no São Francisco e tinha outro de Januária,
eu tirei eles em Januária. O padre de Januária, dentro do
municípi de Januária, ia dizê uma missa. E outro padre
de São Fancisco, dentro do município de São Fancisco...
Ia assim, chegava os padres, um dividia prum lado, um dividia pro outro,
um padre vinha de cá e outro vinha de cá. Agora hoje não,
agora municipô Maria da Cruz, já tem um padre, já
mora lá o padre...
AS
FESTAS
Tinha um sanfoneiro, tinha um violeiro, tinha mais era violeiro, tocador
de violão, tocador de viola. Cantá ô, batia num pandeiro,
batia cantando... mas era uma beleza. Era uma coisa mutcho animada, todo
mundo gostava, todo mundo tomava um gole, abraçava todo mundo,
num tinha briga... Num tinha esse trein que diz que deixa o cara doido,
esse tal de maconha, como é que chama? Esse trein num tinha, era
um cigarrinho mesmo, esse Liberty, um Astória, Continental... um
cigarinho diferente pra gente tomá alí, mais era só
isso. Tinha festa nas casas das famílias. Por exemplo: eu sô
um pai de famila e queria fazê uma brincadeira, tinha rapaz, tinha
moça, vamos fazê uma brincadeira aqui. Nóis chamava
fulano, cicrano, tocador de sanfona, ele vinha... Tinha vez que nóis
associava, eu pagava uma parte, outro pagava outra, cada um pagava ele
a noite pra tocá. Quando um fazendeiro chamava um padre pra rezá
uma missa, depois que terminava tudo, que o padre ia embora, eles mesmo
fazia festa. Pagava um sanfoneiro e fazia uma festa até o dia nascê,
praquele mutirão de gente, aquele povo aí. Mutcho bom. A
gente gostava, a gente num tinha outro divertimento.
O
GOVERNO
É porque o lugar que nóis morava, o go-verno num sabia daquele
lugar. Nóis morava num lugar alongado... um lugar que num tinha
estrada. Mas cada um que olha o lugar, arranca pra eles. Chega lá
eles come a metade deixa a pobreza aí mais pior... É isso.
A razão que o lugar está mais ruim é isso. Que consciência
vai em poucas pessoas. Consciência. Consciência tem poucas
pessoa.
Eu nunca roubei uma bala doce para dá para um filho meu. Toda essa
idade, estô com 67 anos, eu nunca... Se eu dizê a você
que eu já roubei um palito de fósforo de uma pessoa para
acendê um cigarro, eu estô levantando falso ideal. Nunca fiz
isso. Eu já passei fome e precisando das coisas pra num vê
meus filhos passá precisando e nem robá. Nunca, nunca, nunca
chegô uma noticia assim que: Ah, seu filho apanhô lá
em casa...! Não. Pede por esmola. Se num tivé o que comê,
a minha opinião é essa, se num tivé, num achô
comida, pede por esmola. Me dá uma esmola, eu tô precisando
mesmo. Eu sô um Trabalhador Maior mais eu num tenho, eu num tenho
nada, estô com fome... me dá?
A
TERRA ANTES
Aquelas fazenda naquele tempo que era muito grande, o povo lá:
Pode ir lá olhá, pode ir lá trabalhá! Então
dava pra gente morada e deixava a gente trabalhando. Tinha fazenda que
tinha quarenta a oitenta agregado. Morador. O dono morava lá, as
vezes tinha casa na cidade, tinha casa em Belo Horizonte, outros acolá,
mas tem a fazenda lá. Tem um encarregado lá que hoje eles
chama encarregado, naquele tempo falava é... catapaz, capataz,
que é o que resolvia lá pra ele, tocava tudo. A gente é
que queria trabalhá, então ninguêm pensava que aquilo
ia sê assim. Achô o lugar, morada, está trabahando...
Chegava numa fazenda, o dono falava: Olha, a terra está aí,
o mato tá aí, cês pode por à vontade e trabalhá!
Então quem que ia sabê que este trein amanhã ou depois
a gente ia ficá sem terra. Queria trabalhá, todo ano, a
roça está aí, põe um põe outro, sempre
trabalhando, criando a familha, então ninguém pensava. Quando
veio pensá, eles já estava seguro na gente. Eles já
estava com a gente seguro. O dono da terra lá, a terra tem que
pagá de três um. De três um. De três balai de
milho jacá, (você conhece o milho jacá?) dá
um pra fazenda. De três caroço de mamona, um é da
fazenda. De três capucho de algodão, um é da fazenda.
De três espiga de milho, uma é da fazenda. De tudo, de tudo
que você conhece tem que dá.
A
HISTÓRIA DO CAVALO
O patrão falô comigo: De agora em diante, você vai
tê que arranjá um lugar para você criá este
cavalo. Ou cê vai criá este cavalo lá na estrada,
na Rural-Minas! Lá onde num tinha pasto nenhum, aonde é
asfaltado. Que é que eu tinha que fazê? Por isso que eu fui
mbora de lá. (Eu num tive questão nenhuma com ele. Eu falei:
Olha, tô com quarenta anos que eu moro aqui. Quarenta. Hoje me impus
essa condição, eu vô embora. Vô embora lá
para a cidade. E eu vô!) Lá num tinha cidade, lá era
morada na fazenda. Quando dava o final de semana, eu tinha que tê
o cavalo, eu tinha que ir longe, vinte e tantos quilômetros nas
vendas, nos armazem, comprá a dispesa pra eu levá pra casa
pra tocá o serviço. Tinha que sê no cavalo, tinha
que apanhá no cavalo. Tinha vez que vinha de pé puxando
o cavalo. Daí esse dono chegô e falô isso comigo. Era
um colonião que ficava nesse mundo, eles botava gado, engordava
boi, vivia direto assim.. e eu num podia criá o cavalo. Nesse lugar,
morava quarenta e tantos agregados, ‘nton eles queria retirá
todo mundo para deixá a fazenda e criá boi...
E
O HOMEM NÃO FOI À LUA
Eu ouvia falá que tinha esse homem que ia na Lua, que estava indo
à Lua, mais eu detesto, toda vida, eu num acredito. Até
hoje, num posso acreditá. Sabe o que é que penso? Que esse
fogo pode tê rompido naquele rumo e, às vezes, caiu num outro
país, que eles ainda num sabia. Chegô num outro lugar. Mas
que vai totalmente na Lua, eu num acredido. Até sobre marcá
o rumo da Lua e vai no rumo do sol, eu num duvido, que da hora que sai
do chão, aí cê vai seguindo um rumo. Cê num
larga o rumo certo se tivé parado aqui no chão. Entendeu?
Eu estô parado aqui, eu estô vendo aquela caixa ali, eu marco
o rumo dessa caixa, mais se eu estô quieto aqui e a Terra está
andando... Que nem lá o Sol, vamos por que ela seja o Sol. Se ele
está lá no lugar dele e eu estô aqui na Terra parado,
a Terra andando, eu é que estô andando. Mas na hora que eu
sair do lugar, se eu estô olhando o Sol, justamente, a Terra está
andando sozinha e eu estô indo... A Terra num está andando
comigo, eu posso marcá, ir lá, mas o Sol vai sair. Com a
Lua a mesma coisa. Se o foguete sair daqui no rumo certo, quando chegá
lá, a Lua já andô. Assim como a gente num pode enxergá
o Sol, que é quente demais, a Lua também deve sê fria
demais, ninguém aguenta, congela. Por isso que eu achei que num
dá conta de entrá lá. Às vezes pode tê
sido, mais eu protesto, pra mim num foi não.
E outra coisa também, porque a Lua ou o Sol, é uma coisa
de Deus, que num ficô pra gente descobrir aquele segredo. Às
vezes a gente acha que está descobrindo muitcha coisa e num é
pra gente sabê. Entendeu o meu dizê? Cê num pode descobrir
o quê que é aquele segredo, que é um segredo de Deus.
EPÍLOGO
Muita gente conta muitas histórias, mas eu num aprendi a contá
muitas histórias. Eu num acredito em contá histórias
você sabe porque que é? Porque eu toda vida tive uma opinião
esquisita, que eu detesto mintira. Que eu sô um homem que eu detesto
mintira. Se eu te falá: isso é assim, assim e assim, você
pode escrevê que eu te dô a certeza. História, é
mentira.
Entrevista
: Piero
Edição: Pablo |