Venderam as
passagens e só então foram arrumar as mochilas. Ainda encontraram
dois amigos e passaram na casa da Prima. Era meia-noite e os três,
dentro do velho Chevette, partiram para o Rio. Às seis da manhã
eles chegaram em Copacabana e a noite acabou. No dia seguinte, após
uma outra conversa, também animada, na casa do amigo Luís
Carlos, partiram novamente com destino a Jabour, bairro do Bangu, zona
norte do Rio, onde mora, recatado, Hermeto Pascoal. Erraram o caminho
e gastaram uma hora e meia até chegar à casa, mas acharam.
Um pouco tímidos, bateram à porta. Diante dos três
mineiros, surgia a figura única de Hermeto Pascoal, com seus cabelos
alvos e sua aura de duende. Os olhos apertados e o sorriso largo no rosto
cativaram todos. Daí pra frente foi só alegria. Hermeto
diz tudo e a conversa (entrevista jamais) foi franca, direta e interessante.
A lucidez deste nordestino, músico universal, impressiona. Os três
quase não abriram a boca, comovidos com as palavras, os gestos,
a generosidade e a sinceridade de Hermeto. Os trechos da conversa estão
aí pra quem se interessar, do jeito que ele falou, com a lógica
de Músico porque “pra tudo tem uma lógica”.
Lá em Lagoa da Canoa eles me chamam de Sinhô, Sinhô
do Pascoal e da Divina, que são meus pais. Da minha geração,
ninguém consegue me chamar Hermeto. “Ô Hermeto, me
desculpe, mas é Sinhô mesmo, só sei lhe chamar de
Sinhô”. Nasci em Lagoa da Canoa. Eu nasci num bairro, que
hoje é bairro, fizeram mais uma casa, então é bairro.
Chama Olho d’Água da Canoa, mas como me criei em Lagoa da
Canoa, e até a documentação toda é de Lagoa
da Canoa, então eu sou de Lagoa da Canoa. Lá tem uma lagoa
muito grande. Inclusive, como o lugar era pequeno, a lagoa era maior que
o lugar a bem dizer de tão pequenininho que era o lugar, é
pequeno mesmo. Lá era um povoado. Fica no Estado de Alagoas, perto
de Arapiraca. É por isso que tem o nome de Lagoa da Canoa em vez
de chamar Canoa da Lagoa, chamava Lagoa da Canoa por causa da lagoa. Agora
não, agora é cidade. Eu fui para lá há uns
cinco anos ou mais, fui para a emancipação. Eles fizeram
uma festa, eu reconhecia todas as pessoas do meu tempo, até o homem
que vendia queijo. Vi todo mundo e eles ficaram admirados, e todo mundo
me chamando de Sinhô. Hermeto não existe. Quando eles me
chamavam de Sinhô, eu olhava a fisionomia das pessoas e reconhecia
todo mundo. Fiz um show lá no meio da rua, na rua da feira, onde
eu tocava. Meus primos lá tinham um caminhão, abriram a
carroceria, nós fizemos como se fosse um palco e fizemos um som
lá. Tenho muita gente lá, primos, pai e mãe não,
pai e mãe estão no céu, família, sim, primos.
Comecei a fazer música justamente em Lagoa da Canoa.
Eu sempre digo que a minha idade de músico é a minha idade
cronológica também. A minha música começou
no meu cordão umbilical. Foi quando eu nasci, o meu primeiro som
foi esse, considero esse. Quando eu fiz 60 anos, fizeram uma festinha
para mim e queriam saber quantos anos de música eu tinha. Eu falei:
"60 anos". Na época eu ia fazer 60 anos, hoje tenho 63,
que são 63 anos de música. Não abro mão do
dia que eu nasci, não abro mão de ser o primeiro dia de
música. Não de teoria, que muita gente fala que teoria é
música. Teoria não, música é música
e teoria é teoria. A teoria é uma coisa e música
é outra coisa. A teoria musical eu vim aprender depois de meus
35 anos de idade, aprendendo com a vida, sem escola sem nada. Nunca estudei
com nenhum professor. Infelizmente, porque isto me tomou muito tempo,
aprendo as coisas com deduções, porque Deus fez o mundo
bem feito, tem uma lógica para tudo. Não tem esse papo de
"isso não tem lógica". Quando não tem lógica
é porque não existe. Outros confundem lógica com
padrão. Tá errado! Padronizar as coisas não tem nada
a ver com lógica.
Eu comecei assim a minha carreira de música: Eu comecei a tocar
no mato tudo que tinha de coisa porque na minha terra não tinha
luz elétrica. Então a gente inventava. Eu inventava muito.
Foi bom que desenvolvi esse lado, você vê essas coisa que
eu faço hoje em dia com percussão, toco com tudo, eu já
tocava quando era criança. Brincadeira de criança que a
gente chama. Então, o quê que aconteceu? Eu ia pro mato,
meu pai me levava pra roça. Eu ficava debaixo das árvores,
por causa que eu sou albino e me queimo muito no sol. Aí, botava
o carro de boi na árvore, ficava em cima do carro de boi e ele
ia buscar ração para os bois. E ele dizia: "Não
saia daí de cima". Por causa do sol. Aí eu corria quando
ele saia e arrancava um canudo de mamona, aquelas de mamoeiro. Pegava
a mamona fazia flautinha, fazia uns negócio, pra tocar, brincar.
Coisa de criança. Mas acontece que eu já tinha mesmo musicalidade.
Tanto, que os Passarinhos, eles vinham, onde eu tava tocando, eles vinham.
Eu sabia chamar os Passarinhos com o som. Aí, passei a tocar flautinha
no mesmo lugar. Então quando, era naquela Árvore que meu
pai sempre ficava lá, eu chegava debaixo da Árvore que eu
tocava, dava uma nota na flautinha. Meu pai chegava e dizia: "Meu
filho, quanto passarinho". "Pois é, a Música",
eu dizia. Isso com sete, oito anos de idade, pequinininho, né?
Aí foi que eu comecei a tocar mesmo. Meus instrumentos do mato.
Lá no Norte, tem um ditado que diz "eu me entendi de gente".
Entendi de gente é quando a gente tá grande já, sabendo.
Você começa a analisar suas coisas de criança. Foi
quando eu comecei a ver esse lado todo, o lado dos animais, que eu conversava
com os animais, naturalmente. Eles entendiam tudo, a gente se entendia.
Eles me entendiam porque eu via a ação deles, depois que
a gente conversava. Eu ia no meu Cavalo, (eu tinha meu Cavalo pra eu andar
porque como eu não enxergava bem, meu pai me dava um que ele sabia
que o Cavalo não ia vê uma Égua, não ia sair
atrás da Égua, correndo, pra não desembestar. Só
que meu pai não sabia que eu gostava desses Cavalo Doido. Ele não
queria, mas eu pegava escondido. Depois de grande foi que eu vi que ele
tinha cuidado certo comigo) e eu conversava com ele. Eu batia assim nele.
Ele andando, eu batendo nele assim e conversando com ele: "É,
já tá pertinho, né? Tamo chegando". Dizia pra
ele tudo direitinho, o Cavalo fazia com a orelha. Eu sabia os sinais.
Por exemplo: Quando o Cavalo via uma visage. O quê que é
uma visage? É uma visão, uma coisa espiritual, uma energia.
Que o animal é muito sensível. A gente põe eles no
lugar errado, acha que o animal não tem espírito. É
conversa fiada. O espírito deles é tão elevado quanto
o nosso. As religiões não admitem isso. São Burros!
não aprenderam com a vida. (Não é domar não.
Não é como eles fazem no circo, isso aí tinha que
ser proibido. O Elefante andando num cabo de coisa, mostra que é
inteligente, claro. Tem muita gente dizendo por aí que é
inteligente, que é racional, e que não vai se equilibrar
num cabo de coisa. Mas o coitado, o que ele apanhou para fazer aquilo
ali. Não precisava). Os Sapos... Os Sapos são gênios!
São gênios, escondidos, excluídos por nós.
Os sapos já dão a aula do que é orquestração
natural. Eles são gênios, os Sapos, os Pássaros. Deus
botou os animais como o espelho verdadeiro da vida. (Nós exageramos
mais do que os animais, estamos mais nus hoje em dia do que os animais,
na televisão em cima dois tapetes, então você vê
que está... Não sei não nós estamos tomando
o lugar deles. Por isso que não precisava trazer os animais pra
cá, pro centro da cidade). Isso pra responder a pergunta do instrumento
E O PORCO PAROU DE COMER
O Porco. Eu estou misturando tudo pra você ver. O Porco é
tido como rude, talvez o animal mais rude que tem. Mas é aquele
negócio, você tem que ver onde está a coisa. Se nós
somos mais inteligentes, então temos a obrigação
de entender mais do que eles a gente. Aí que vem a história.
Quando criança, eu já sentia isso ao tal ponto de saber
o quê que o Porco gostava mais. Então pegava, às vezes,
um instrumento grande, porque tem aqueles Porcos grandes. Barranco, que
a gente chamava. Não, ele não queria não. Ele queria
justamente um instrumento médio. Eu pegava um talo de abóbora.
(Você pega corta, você arranca um talo, tira as folhinhas
todas e não deixa furar não, porque você vai ter de
rachar no meinho com uma faquinha, com cuidado, aquele talo de abóbora
, racha ele assim e sopra como se fosse aquelas gaitas escocesas, empurra
no céu da boca, que fica aquele som assim, de céu da boca,
como gaita escocesa). O Porco, você toca aquilo ali ele pára,
ele não vem atrás, porque realmente ele é muito nervoso.
(O estresse acho que tá mais no Porco. É por isso que quem
come muita carne de Porco, passa um puta estresse. O Porco é um
bicho que já nasceu assim, estressado). Então, eu já
vi essa coisa tudo quando eu era criança. Quando eu tocava, eu
queria ver: "Todos gostam de som, porque esse Porco desgraçado
não gosta?". Eu deixava primeiro meus tios saírem,
porque eles não queriam, achavam que eu ia mexer com os bichos.
Quando eles saiam: OHHH!!!!. Os-Bichos-Paravam-de-Comer! Ele fazia assim:
(botava aqueles focinhos cheio de .. a gente dava muito, pra eles, resto
de comida, feijão com farinha. Então eles botavam aqueles
focinho assim, cheio de feijão com farinha) "Que coisa é
essa? Quê isso que cê tá fazendo aí?" Você
sentia a felicidade dele. O Porco parar de comer? Ele dava com o rabinho
pro lado assim. Você empurra ele, é a única hora que
ele não corre. Você passa perto dele e ele não sai,
ele se contorce assim e não larga a comida. Com o instrumento,
que tem um som parecido com saxofone, puríssimo, ele parava. Hoje
em dia, eu posso fazer com sax soprano, pode pegar um sax soprano e ir
lá pro Porco e o Porco vai delirar com você. Daí fui
que eu fui vendo os instrumentos. No mato era eu, era eu com os Passarinhos.
Até hoje eu vou pra qualquer lugar e chamo Passarinho. Isso porque
eu fui criado assim, sem luz, sem nada. Na feira escutava alguma coisa
que chegava na época, do Luiz Gonzaga. Chegava naqueles microfones
lá que tinha... você pagava um cruzado pra rodar uma vez,
pra escutar. Nunca paguei porque os outros ficavam escutando e eu ficava
perto, do lado.Bom, daí foi que veio a idéia do meu pai.
Meu pai tocava, era músico também, tocava oito baixos. Minha
família toda tocava, tocava oito baixos. Meu pai ia trabalhar,
deixava o harmônico dele debaixo da cama. Meu pai era agricultor,
ele não gostava de ver o sol nascer em casa. Ficava o dia todo,
só voltava às seis da tarde. Então pegava na sanfoninha
dele. Não era profissional nem nada. Bom, um belo dia, a mamãe
escuta, entre dez e meia e onze horas, (lá o relógio de
lá, na época, era na pedra, batia na pedra pra poder você
saber a hora. Nem todo mundo tinha um relógio. Quem tinha um relógio,
ave Maria, era o rei. Não é que não tinha dinheiro.
Tinha dinheiro, mas não tinha relógio. Comprar onde? Geladeira?
Não tinha luz). Aí, minha mãe começou a escutar
aquele som e tal, foi correndo, mas: "Ué? O Pascoal já
chegou?" Quando ela chegou lá na porta, olhou pela brechinha
e estava lá eu tocando. Eu falo isso, foi eu e meu irmão.
Aconteceu a mesma coisa com o meu irmão, que faleceu. O Zé
Melo, pianista. Eu vou falar eu porque sou só eu mesmo. Ai minha
mãe escutou e ficou emocionada, ficou emocionada. Esperou papai
chegar, ele chegou às 6 horas, que era mais ou menos a hora que
ele chegava, a hora que o sol ia se pondo. Aí ela: “Pascoal,
tenho uma notícia para te dar. Você vai vir amanhã,
agora você venha, porque e estou escutando um som aqui mas não
sabia de onde vinha. Eu pensava que era você, mas não vou
nem te falar o que é. Você venha amanhã 11 horas,
depois você volta para roça se quiser. Mas venha de caladinho,
de ponta de pé”. Aí papai foi embora, normalmente.
Eu lá fui pro harmônico tocar. Aproveitava, escondido dele.
Aah, Bicho!! Quando ele chegou da roça e me viu tocando... É
a alegria, né? Já tocando e começando a tocar bem,
aí ele chegou para minha mãe e disse assim : "Deixa
ele parar de tocar". Aí eles esperaram eu parar de tocar,
que já estava na hora. Minha mãe disse: “Meu filho,
tá na hora de comer, hora do almoço”. Aí, quando
eu cheguei, meu pai estava lá. ”O senhor aqui agora?”
Isso quem estava falando era menino de sete para oito anos no máximo.
Ele disse: “Eu escutei uma pessoa tocando aí”. Eu já
fiquei com medo, achando que ele ia...“Não, não meu
filho não fique não, você vai agora é tocar,
papai vai comprar um para você, eu vou vender aí uma vaca,
um boi, para comprar um bonito para você. Esse é o meu, mas
você vai ter o seu, pronto". Aí comprou um harmônico
com oito baixos. Quando foi com um mês, dois, ele já queria
parar de tocar. Ele já estava com vergonha, eu e meu irmão,
piquinininhos, tocando mais do que ele.
Acabou a gente indo tocar para fazer baile, ganhando dinheiro para fazer
baile e papai sendo o nosso empresário. Eu fui pro Recife, a gente
formou este trio chamado O Mundo Pegando Fogo, com o Sivuca. Foi uma vez
que a gente tocou. E eu continuei tocando minha sanfona, tocando oito
baixos. Mas, em Recife, passei a tocar sanfona. O dono da rádio
comprou uma sanfona pra gente, para mim e outra pro meu irmão.
Aí nós ficamos tocando, tocando. Tocamos um tempo, aí
nós nos separamos, foi um para cada lado. Um foi para Garanhuns,
o outro para Caruaru. Fui pra Caruaru porque o dono da rádio achava
que a gente não ia dar para isso. Me mandou para Caruaru porque
eu não dava para a música e mandou meu irmão para
Garanhuns porque ele não dava para a música. Nós
dois. Só pra cumprir o contrato, que a gente tinha um contrato.
Eu tinha 14 anos, meu irmão tinha 15. Então eu fui pra Caruaru.
Depois, com um ano e pouco, o Sivuca, que era sanfoneiro de lá
do Rádio Jornal do Commercio, foi lá passear e eu estava
tocando. Ele me escutou no rádio e disse: "Quem é esse
sanfoneiro aí? ele está dando uns acordes modernos, tronchos".
Aí o gerente da rádio, o Seu Luís Torres, disse "É
aquele galego que me mandaram para cá de Recife, pra terminar o
contrato, que disseram que não dava para músico, o outro
também, foi para Garanhuns". Aí o Sivuca: "Aah!
É o Hermeto e o Zé Neto. Pois meu senhor, esse menino aí,
você faz assim, você dá ... Quanto é que ele
ganha por mês?". "Tá ganhando 500 contos".
"Se você não passar pra mil logo, você vai perder
o menino". Aí a rádio chegou e aumentou logo a metade
do meu salário. Aumentou e eu já estava com meu nome assim
"O Maior Sanfoneiro do Agreste". Essa coisa que o Sivuca falou,
eu nunca falei não. Nem lá. Nunca falei nem ninguém
falou. Nunca falei não, eu falo agora, agora eu falo. Voltei pra
Rádio Jornal do Commercio, a mesma rádio que me mandou pra
Caruaru, só pra terminar como refugo. O meu irmão ficou
com raiva e não quis voltar não. Luís Gonzaga deu
uma oportunidade pra ele ir pra São Paulo. Ele foi e eu fiquei
no Recife. Mas, na minha cabeça, era só mostrar pra esse
cara, sem raiva dele, que ele me fez um bem, não me fez um mal.
Ele se arriscou, ele podia ter feito um mal se eu fosse em cara que não
tivesse a força que eu tenho. Eu poderia ter me dado mal, ter ficado
desgostoso. Escutar um negócio desse com 14 anos de idade... Daí
continuei tocando minha sanfona, ganhando três vezes mais do que
eu queria. Fiquei mais uns três anos na rádio. Depois fui
convidado pra ir pra João Pessoa, tocar piano e acordeon lá
no regional. Mas eu não tocava bem piano, piano eu estava tateando.
A primeira vez que eu toquei piano foi com o Heraldo do Monte, mas não
continuei no piano, continuei na sanfona. Vim me embora pra São
Paulo, Rio de Janeiro pra tocar sanfona. Toquei aqui na Rádio Mauá,
foi meu primeiro emprego no Rio.Com as Gravadoras, eu já rompi
há muitos anos, já comecei rompendo. O primeiro contrato
que eu fui assinar era na Continental, com um produtor de disco e os produtores
eram donos dos músicos. Quando eu fui convidado pra gravar, pra
mim era uma grande chance, uma oportunidade de gravar, as minhas músicas
todas debaixo do dedo para tocar. Quando eu chego lá, tava lá
uma lista, um papel com um monte de nome de música. Aí ele
pediu para eu sentar e começou a ler e disse: "E agora? Está
bom essas músicas aqui?" Eu digo: "Pra que?" "Já
escolhi as músicas pra você gravar". "As minhas
músicas, o senhor me desculpe, mas, modéstia parte, quem
escolhe sou eu. Isso aí que o senhor me falou, não são
músicas, são letras. Tá muito ruim, quadrado. Isso
aí eu toco na noite algumas vezes, uma ou duas dessas". "Mas
menino!!" E eu estava na faixa dos 20 e poucos anos. "Mas menino!!
Você vai perder uma chance dessas de gravar na Continental?"
Eu digo: "Porque eu vou gravar? Porque eu sou bom músico ou
não?" "É, mas você tem que escolher música
conhecida". Eu disse: "Mas eu quero ficar conhecido, se eu tocar
música conhecida eu não vou ficar conhecido. Eu quero que
as minhas músicas também fiquem conhecidas e que eu fique
conhecido através das minhas músicas. Se for assim eu gravo,
se não for assim, eu quero lhe agradecer, desculpa, mas eu não
quero gravar nunca, não é só hoje não. Não
quero que ninguém me convide, pode avisar para todos seus amigos
empresários, diretores, que eu não quero gravar nunca a
não ser as minhas músicas e como eu quero tocar. Não
abro mão do jeito que eu quero gravar. Quem me chamar para gravar
com alguém, tem que ser como eu quero tocar. Não estou precisando
de nada, não quero nada". Todo mundo sabe que o músico
é o mais duro, quem não é? Eu era um deles, um dos
mais duros. Quanto melhor, mais duro. Essa é a realidade. Qualquer
músico aí que faz essas merda aí, ganha mais do que
nós. Qualquer jornalista contratado de gravadora ganha muito mais
do que vocês. E vai ganhar sempre. Se você quiser ganhar você
também vira a casaca. Nós temos o orgulho de dizer que nós
fugimos do dinheiro. Não é porque não queremos, nós
sabemos como ganhar, mas não queremos ganhar assim. Feliz, qual
é o rico feliz? Eu não quero nunca que o meu valor seja
pela minha riqueza material, quero que o meu valor seja pela minha riqueza
de Notas Musicais. Que seja pela minha riqueza da Alma, do que eu faço,
do que eu sei fazer. Então, a minha riqueza é essa. A riqueza
mais linda do mundo é aquela que você leva com você
para onde você vai, ou na terra ou no céu, que é a
riqueza do Dom. Daquilo que Deus dá para você abraçar
para você fazer fielmente aquilo. Essa é a riqueza. As nossas
religiões são os nossos trabalhos. É o que nós
viemos para fazer. O Negócio é tudo Vaidade. Quando fui
aprender teoria, um grande amigo meu, o maestro José Gomes, lá
de Caruaru, ele disse: "Vou levar você lá para estudar
música". Eu tinha 16 anos. Ele me levou para estudar música,
com o professor chamado Mestre Laranjeiras, era violinista. E eu fui,
com aquela vontade de aprender. (Eles diziam aprender música e
música não se aprende, se aprende é teoria musical.
A música você já nasce com ela, tem o dom musical.
Aprender teoria qualquer um aprende, não precisa ser músico,
nem ter aptidão musical, nem nada. Qualquer um pode tocar um instrumento,
é só aprender teoricamente. Mesmo quem não tenha
o dom musical toca um instrumento. Pode tocar mal, pode até tocar
muito bem e ser um grande técnico. Tem grandes músicos que
tocam aí muito bem e que se tirar o instrumento da cabeça
deles é como tirar os óculos dos olhos. Esse não
é músico, é um teórico). Quando cheguei lá,
o cara me viu e falou: “Esse não dá, esse não
enxerga não, como é que eu vou ensinar para ele?”.
Já fiquei com raiva dele. Aí eu pedi para o meu amigo José
Gomes comprar para mim um livro de música. E o Zé Gomes
disse: “Mas você não enxerga, Hermeto, como é
que você vai ler?” Eu disse: “Eu vou ler, Bicho, pode
comprar que eu vou ler de qualquer jeito. Vou botar o nariz em cima, eu
vou ler, eu quero mostrar para esse cara. Aí o cara chegou e comprou
o livro lá. Eu me lembro que o livro se chamava Alencar Terra,
um livro de um acordeonista, se não me engano, era italiano. Naquele
tempo era cheio de acordeonista, todo mundo tocava. Quando eu peguei no
livro e vi as manchetes, aquelas letras grandes, estava escrito assim:
“Primeira lição: Breve. A breve vale oito tempos”.
Breve, que diabo é breve? Mas eu não sabia o que queria
dizer tempo. “Semi-breve vale quatro tempos”. (Como tinha
um cara lá na minha terra que via esse negócio de tempo,
de chuvada, ele botava um aparelho no quintal dele para dizer se ia chover
ou não. Eu já fiquei em tempo de falar em chuva. Te juro,
é inocência, né?) Aí eu olhei, tinha a figura.
Quatro tempos, mas tinha uma bola, aquela bola branca, quatro tempos.
Depois, lá na frente, eu vi escrito “Mínima”.
“A mínima vale dois tempos”. Tinha uma bola branca
e tinha uma hastezinha. “Vale quatro tempos”. Aí eu
já fui deduzindo. Como eu tinha estudado, eu tinha dezesseis anos,
eu já tinha feito o terceiro ano e também não estudei
mais, que seria, hoje, o terceiro ano ginasial. Meu amigo, quando eu li
aquilo ali que eu vi o que era dois tempos. Aí eu vi o segundo,
era aquela C mínima pretinha. Tava lá, “Um tempo”.
Aí outra, eu digo: “Ah, então já aprendi”.
Quando eu olhei pra frente assim, vi os desenhos tudo direitinho. Aí
daquilo ali, eu comecei a deduzir e escrever. O tempo eu já sabia
que era ritmo. Quer dizer, quando eu tocava no regional, os caras já
diziam: “Toca no ritmo, menino”. É a mesma coisa que
dizer assim: “Toca no tempo”. Eu deduzi. Aí que eu
vi que não valia a pena continuar muito na teoria, agora porque
a teoria ia me atrapalhar. Eu deixei completamente pra lá a teoria.
Na hora de vim me embora pro sul sem saber nada, eu sabia só isso
que eu tinha visto. Depois eu retomei, depois que eu já tocava
bem os instrumentos, que a teoria não me atrapalhasse nada, para
eu usar a teoria, pra me acrescentar. Quando eu tinha meus 50 anos, eu
falei com a minha esposa que estava um pouco preocupado porque estava
todo mundo achando que eu não sabia o que eu sei. Todo mundo tinha
alguém que ensinou e eu já estava cansado de dar desculpas
porque estava consciente que não. Eu também gostaria de
ter um professor Aí chegou na minha cabeça de que eu estava
órfão. Eu era um órfão, comparando com aqueles
caras que ficam procurando pai e mãe e eles não sabem quem
foi o pai e a mãe. Eu não tenho pai musical. Aí aquele
negócio da minha imaginaçao que me acompanha a vida toda.
Eu passei a acreditar cada vez mais e lancei um disco chamado Lagoa da
Canoa, que eu botei na capa assim: O meu professor é o meu dom.
E o nome do meu dom, claro, todo mundo tá vendo que é Deus.
Eu aprendi com a vida. Eu ficava nervoso mesmo. Como é que eu vou
provar pra esses caras que eu escrevo pra sinfônica, pra qualquer
tipo de instrumentação e ninguém me ensinou nada?
E até hoje eu fico pensando. Agora eles me aceitam porque eles
tentaram me desafiar e não conseguiram. Porque eu vou com os arranjos
pra eles tocarem e eles não tocam e eu gravo lá fora. Lá
fora, a concepção é outra. Ninguém quer saber
quem é autodidata, se é autodidata tem mais valor. O autodidata
é o verdadeiro músico.
Meu discos estào sendo pirateados pelas Gravadoras. As minhas Gravadoras
lançam os meus discos e não me dão satisfação.
Digo isso porque provo. Nenhuma delas tem um recibo assinado por mim lá,
deles pedindo uma autorização para lançar meus discos.
Eu sei que as músicas são deles, mas para todos discos eu
tenho direito autoral. Eles recebem de novo e porque que eu não
recebo? Eu já falei: PIRATEIEM MEUS DISCOS. Comprem meus discos
aí e doem para os amigos. Se quiser comprar, venda também.
Agora, baratinho. Não sacaneie os caras. E vão botando o
Hermeto pra tocar. Eu quero é tocar, não toco em lugar nenhum.
Não toco em rádio, pirateiem, vendam. Quem está dizendo
sou eu. Meus discos todinhos. Esse novo não. Esse está saindo
agora, é um disco que não foi feito pensando em nada. A
Gravadora é a Rádio Mec. A Mec é uma rádio
pobre também porque é do governo, é pobre. Nós
queremos a cultura. Mas se eles não tocarem, vende, vende também.
Se não tiver o disco, eu dou essa porra também. Eu quero
é isso. Pirateiem os discos do Hermeto, estou mandando piratear,
eu assumo. A Gravadora não pode dizer nada porque me deve. Todas
são Ladras, estão me roubando e vão me roubar até
eu morrer. Não estou com raiva não, não vou ter tempo
pra ficar com raiva disso. Eu não gosto de dinheiro, eles gostam,
tanto que eles fazem isso. Agora eu estou falando em nome de muita gente
aí que está calado e não diz nada. Eu nunca recebi
mil reais no Brasil, já assinei 70 recibos no Ecad de Brasília
e nunca foi mil reais. Da editora na França eu recebi seis mil
reais da primeira vez. Aqui, a Rádio Mec fez cinco mil discos,
mas não tem distribuição. Se tivesse distribuição,
vendia. Eles falam, anunciam na rádio dizendo: “Nas boas
lojas”. Que boa nada, tem que vender em qualquer lugar, vendeu,
é boa. Mas estou contente porque o trabalho está bonito.
DE PANDEIRISTA PRA PANDEIRISTA
Quando eu conheci o Jakson do Pandeiro, ele não tinha o nome que
ele tinha como cantor, nem ele nem a Almira Castilho, eles não
eram conhecidos ainda, depois sim. Ele ficou conhecido depois que ele
conheceu a Almira Castilho. Mas o Jakson do Pandeiro, na Rádio
Jornal do Commercio, era panderista. Ele não era cantor. Depois
ele passou a ser o cantor. Quando ele veio pro Rio, ele já veio
cantando, ele já era sucesso em Recife. Mas quando eu cheguei lá,
que eu cheguei com 14 anos, não. Agora eu falo algumas passagens
da minha carreira com o Jakson que muita gente não sabia. E tem
muita gente aí que não está acreditando porque esse
tempo todo eu não falei. Mas a minha consciência é
que fala. Eu não falo pelos outros, eu falo por mim. Eu tocava
muito bem o pandeiro. E o Jakson do Pandeiro já estava começando
a sair, a largar o pandeiro devagar pra ficar só cantando. E tinha
um programa na Rádio Jornal do Commercio que chama-se Felicidade
Bate à Sua Porta, que era feito nas ruas. E o Jakson achando eu
muito musical, ele vendo o meu futuro, o que aconteceu? Na hora de eu
tocar com ele, ele veio embora pro Rio, não peguei a fase áurea
do Jackson porque ele veio embora. O Jackson chegou pra mim e disse: "Hermeto",
ele não me chamava de Hermeto, me chamava de Sivuquinha, mas ele
me chamou de Hesmeto porque Hermeto ele não conseguia. "Hesmeto,
se você ficar nesse negócio de tocar pandeiro, você
não vai pra frente não. Não vê eu, estou começando
a cantar, não vou ficar no pandeiro toda hora não".
Eles me escalavam no pandeiro. Invés de colocar assim "Hermeto
Pascoal e seu Acordeon", que eu não tocava nada mesmo, eles
botavam "Sivuquinha e seu Pandeiro". Aí eu fui lá
falar com o gerente e eu garotinho de 14 anos: "Ó eu não
vou tocar pandeiro não, o senhor não me leva a mal, mas
o meu coontrato aqui é pra tocar sanfona". Falei assim mesmo.
Ele disse: "Mas você não toca nada ainda, você
está aprendendo". Eu disse: "Se eu for tocar pandeiro
eu não vou aprender a tocar sanfona". Ele me achou muito malcriado
e me deu 15 dias de suspensão. Eu disse: "Minha terra é
longe daqui, o senhor me dê 30 dias pra dar tempo eu ir na minha
terra e descansar um pouco. Aí ele me mandou pra Caruaru e meu
irmão pra Garanhuns. Você vê que o Jackson teve a ver
com isso.
ALBINO LOUCO ACERTA TROMPETISTA
O meu encontro com Miles Davis lá, quando eu fui lá pela
primeira vez, convidado pelo Airto Moreira e a Flora Purim. Fui fazer
um trabalho de compositor, de instrumentista e de arranjador. Eu fui fazer
com o maior prazer, fui mostrar o meu trabalho. Já estava bastante
conhecido no Brasil quando eu fui. O Airto tinha me dito que ele era um
cara chato, que, se ele não gostasse da pessoa, ele mandava a pessoa
se retirar. O Airto tinha medo dele. Quando eu fui no show dele, ele chegou
rápido e começou a tocar. Aquele jeitão dele, meio
carrancudo. Eu não conhecia ele. Por causa da minha vista, eu não
gravo fisionomia de homem ,não. Então eu não lembrava
como ele era. Aí chegou aquele cara perto de mim e falou umas coisas,
veio falando comigo, meio rouco. E eu não falo inglês, até
hoje não falo. Aí eu já tinha dito pro Airto ou pra
Flora, pra quando eles vissem alguém falando comigo, que eles me
viessem me socorrer pra eu não ficar nervoso. Aí veio o
Airto correndo, mas ele veio assustado e disse: "Você sabe
quem está aí, é o Miles", como quem diz "Pô,
que milagre o cara vir conversando com você sem lhe conhecer, sem
nada". Aí eu falei que conhecia muito a música dele,
que eu admirava o trabalho dele, aqueles papos, né? Aí ele
falou pro Airto que queria conhecer a minha música. Não
é qualquer um, você tem que acreditar em alguma energia celestial.
Isso foi antes de começar o show. Eu acredito nisso, senti um vibração
bonita dele. Aí ele fez o show dele, eu assisti o show, depois
eu fui em um, dois, três shows. A música dele eu não
achava boa naquela época, aquela música que ele fazia, aquele
rock. E ele sentia em mim isso, ele sentia que eu estava fazendo aquilo
lá que ele gostaria de estar fazendo. E eu senti nele isso. Isso
com a alma, com o coração, com tudo. Aí eu fui fazer
o meu trabalho e deixei pra lá. Mas ele aí me ligou e disse
que queria me ver de qualquer maneira. Aí lá vem o Airto
com medo de me levar e chegar lá e ele não querer me receber.
Eu disse: "Airto, deixa, o que eu estou sentindo aqui e diferente
do que você está sentindo. Você quer passar pra mim
uma coisa ruim? Você quer que eu fique com raiva do cara? Ou você
está com raiva dele?". Quando eu cheguei lá e tal,
levei um violão, ele se sentou, toquei um monte de música,
cantando e solando as minhas músicas. Quando acabei de tocar ele
chegou e disse: "Que pena, que eu não posso gravar todas as
suas músicas!". Aí eu falei: "Mas como você
sabe que eu quero te dar todas pra gravar, eu vim também pra gravar
aqui. Eu vou escolher as que eu quero te dar". A partir daquele dia
houve aquela simpatia geral. Ele já me apelidou logo e disse: "Você
é um Albino Louco", começou a me tratar de Albino Louco.
Ao ponto de eu ir pra casa dele e a gente ia lutar boxe. Uma vez eu dei
uma porrada nele, errei e dei uma porrada nele. Uma vez eu dei uma entrevista
na Rádio França, de uma hora em meia, e o repórter
me perguntou: "Hermeto, você está disposto a responder
uma pergunta que vai ser chata pra você?". Eu disse: "É
ruim ou é boa?". Ele disse: "É boa". "É
pelo seguinte, o Miles Davis esteve aqui dando uma entrevista pra mim
e eu perguntei pra ele se, quando ele morresse, ele gostaria de ser músico?
Aí ele falou que gostaria de ser Um Músico que nem o Hermeto
Pascoal". Isso, agora eu que estou falando, se eu, Hermeto, não
tivesse o nome que eu tenho, ia parecer chato, mas não fica porque
é a minha consciência que diz. Quando eu soube disso aí,
eu disse pro cara também: "Se eu morresse eu gostaria de ser
um músico como ele". Mas, pelo jeito que ele falou, ele deu
a entender que ele gostaria de ser melhor do que ele foi, que teria que
ser como o Hermeto. Aí me encabulou muito. O Gil Evans foi receber
um prêmio lá em Nova York de melhor arranjador. Eu tenho
sorte pra essas coisas. Eu estava fazendo uma temporada com a Flora Purim,
o Airto Moreira e o Opa Trio, em Nova York. Aí chegou um pessoal
da imprensa lá pra dar um prêmio pro Gil Evans. Um amigo
me falou que o Gil Evans estava querendo falar comigo. Eu fui lá.
Aí me apresentaram pra um monte de gente lá, tudo em inglês,
eu não entendi nada. Depois o meu amigo falou: "Você
sabe pra que você foi lá? Os caras estavam apresentando um
prêmio como melhor arranjador do mundo e ele apresentou você
como o melhor arranjador do mundo". Eu disse: "Rapaz, estou
assustado, se eu soubesse eu não teria ido não porque eu
não acho". E ele apresentou lá pro pessoal. São
coisas que o Brasil não sabe. Se eu tivesse feito um gol num jogo
de futebol todo mundo sabia. Mas só por isso eu vou deixar de fazer
o que eu gosto? Não. Eu-Sou-Consciente-Porque-Eu-Saio-De-Mim. Eu,
pra saber o que eu sou, eu tenho que sair de mim. Eu não posso
ficar em mim. Saio de mim como? Eu me transporto pra cima do morro, pra
cima de uma casa, pra cima de um poste, pras nuvens, pra olhar pra mim,
pra olhar pro Hermeto. Quando falo em mim eu estou falando no Hermeto.
Mim, que eu falo sou eu, o corpo, o Hermeto é o Hermeto, é
o espírito do Hermeto, tem vários momentos na terra e vai
ter muitos como nós todos. Ninguém sente que eu tenho vaidade,
que eu estou falando que eu sou o Bom, não. Eu tenho certeza absoluta
que eu não sou o Bom, que eu não sou o Melhor, tenho certeza
que eu não inventei nada, tenho certeza que ninguém inventou
nada, eu tenho certeza que tudo que eu sei e tudo que saberei, é
por Intuição. É presente que a gente ganha. A gente
não sabe nada, a gente não faz nada, a gente é conduzido
a fazer as coisas, com personalidade, com nosso próprio espírito.
E não estou dizendo que eu sou espírita, não. Eu
sou Músico. Através da música é que eu sinto
energia. Eu não acho a música diferente de nada. Se eu tenho
cem, completo cem, eu sou o melhor do mundo. Agora, ninguém tem
cem. Sabe porque ninguém tem cem? Porque os dias mudam. Porque
que a Terra gira? Pra ninguém ter cem. Pra quem quiser transbordar,
transbordar e se lascar. O que é transbordar? Beber água
demais, enriquecer demais, transar demais, correr demais, ficar famoso
demais. Eu sempre segurei o famoso. Jamais eu queria ser famoso porque
o famoso acaba sendo o ingrato, um ingrato inconsciente. A fama é
que eu não quis. Estou satisfeito com meu reconhecimento, mas principalmente
comigo mesmo porque de lá pra cá tem pouca coisa. O meu
reconhecimento maior que eu tenho é pela imprensa escrita. A televisão
não tem. Tem um reconhecimento embutido, pessoal para cada um.
O cara gosta do Hermeto, mas não tem coragem de lançar o
Hermeto, nem de falar do Hermeto.
Vou mandar um recado para os músicos: tá na hora dos músicos
pararem de reclamar que a música está ruim. A música
só está ruim porque os músicos estão tocando
mal. Tem muito músico que sabe tocar bem, mas está tocando
mal pra ganhar dinheiro, dinheiro de comer, com medo de passar fome. É
mais digno ir para debaixo de uma ponte, até ficar lá na
rua, do que você vender sua alma. E eu sempre digo isso e é
coisa que eu gosto de repetir em entrevista. Não é teimosia,
é a realidade. Oh! É aqueles caras que dizem que estão
passando fome, mas tem que passar, não tocam nada. Os músicos
têm medo de dizer, mas tem que dizer. Nós temos essa vantagem
de não ter ética não, você pode falar. Eu digo
para o próprio músico: "Você gravou com quem?".
"Gravei com fulano, com sicrano". "Pois é, eu não
gravo com esses caras, você gravou, o que é que vocês
querem?" Às vezes eu critico muitas músicas dos músicos.
Mas eu nuncva critico o instrumentista em si. Eu critico o trabalho dele.
É a mesma coisa que o Ronaldinho não estar jogando bem,
a imprensa não tem que falar bem, tem que meter o pau. É
construtivo, eu acho. Agora se o músico está tocando mal
e eu sei que ele toca bem e está querendo tocar mal, é pior
do que aquele cara que não toca bem, que não alcança.
Eu não digo nada, chamo ele e digo: "Você não
quer aprender a tocar?" Pra ele, não pra imprensa, pra ele,
quietinho, dou um conselho. Agora pro cara que toca bem e está
aí fazendo coisa, realmente eu não posso deixar de....
Essa música
com o Miles foi o seguinte: além daquela história que eu
já contei, eu pulei uma que eu vou contar agora que aconteceu agora,
depois dele lá no outro plano. Eu gravei no disco do Miles Davis
duas músicas minhas e saiu que o Miles tinha roubado as minhas
músicas. Saiu mesmo o nome dele nas minhas músicas. Mas
jamais eu, pelo conhecimento que eu tenho com ele, jamais ele ia fazer
isso comigo, nem com ninguém. Musicalmente jamais. Então
eu falei com toda imprensa do mundo, porque o mundo inteiro me perguntava
e já hoje em dia ele já sabem disso. Mas o que aconteceu:
quando eu fiz essa gravação, o Miles Davis, por ser um gênio,
um cara tão musical, ele aprendeu essas músicas minhas,
eu não precisei escrever partitura nem nada. Eu escrevi partitura
somente pros músicos que tocaram na época: que foi o Dave
Ahola, que tocou contrabaixo.... (corta) Então a partir disso aí,
quando eu vim para o Brasil, que o Miles faleceu... É como eu sempre
falo, a gente tem muito mais oportunidade espiritual, de intuição.
A coisa se aproxima muito mais. Ficou na minha cabeça que eles
ficam me pedindo pra tocar, fazer música. Fica aquela coisa toda.
Então eu tava compondo essa música (do disco, que eu sei
que vocês vão ler a revista e vão comprar depois:
compre o disco, ligue para a rádio MEC do Rio.) Aí... (Se
eles não derem o endereço eu não dou também
não, que eu tô trabalhando sozinho, Aí é demais.)
eu me imaginei, que quando eu tava tocando a música falando para
o Miles Davis, eu assobiei nas duas faixas. Ele aprendeu gravando essas
músicas no estúdio, e ficou. E eu tocando o Hammond, teve
uma hora que ele parou, que eu estava tocando num órgão
elétrico que ele tinha lá, horrível, mas na hora
eu descobri um som no instrumento, mas justamente na hora que eu não
tocava com teclado, antes de começar a gravação,
eu aumentei o volume e o som veio pela intuição… Uáaa,
Uáaaa... Aí o Miles correu de lá e disse: "oh,
que som, que coisa bonita isso aí". Então nesse meu
disco agora, que eu fiz essa música e dediquei a ele, como eu estou
tocando flugelhorn, agora, quis homenageá-lo, retribuir, que eu
acho que aquele convite que ele fez no disco dele foi uma homenagem para
mim. Eu acho que foi, muito bonita. Então o que acontece, quando
eu estava compondo esta música aqui eu não pensei em compor
nada pra ninguém, nem para ele nem para ninguém eu não
premedito as minhas coisas. Eu comecei a tocar a música e comecei
a achar muito parecido com ele, porque eu não faço música
para ninguém, eu dedico para as pessoas, porque tem música
que parece com as pessoas, como na fotografia. O Caca tá aqui me
vendo e ele sabe que é assim . Tem música que parece com
fotografia. Então é o que eu acho, tem músicas parecidas
com aquelas pessoas então eu dedico àquelas pessoas. Tem
pessoas que se assustam comigo ao ponto de dizer "Pô mas você
não me conhece mas está me dedicando a música."
Pois é mas você é parecido com esta música
aqui. Qué ou não qué. "É eu gosto. Bom
aí o que aconteceu, dediquei para ele , mas me comunicando muito
com ele espiritualmente. Comecei a tocar e sentia muito a presença
dele na minha mente. Ai, ai, ai, ai, ai, né. Na gravação
é que estava muito mais forte a intuição, né.
Aí primeiro eu fiz essa gravação, eu gravei... você
pode ver que começa com a capela só com os flugelhorn com
os quatro flugelhorn e aquilo ali eu fiz depois, que é a introdução
ali mas eu fiz depois, botei como introdução porque eu quis
mostrar para ele, conversando com ele, eu conversando com ele, brincando
com ele, dizendo para ele, " Olha aqui o flugelhorn, eu vou tocar
um negócio, um samba aqui , para você ver como é que
eu estou tocando samba no flugelhorn, Aí eu fiz aquele pedaço
que não tem nada a ver com a música que eu dediquei para
ele. Aí na contra capa eles erraram, não entenderam bem
o que eu disse e colocaram como se fossem duas músicas, não
são duas músicas, aquilo é uma música só
Aquilo é a introdução da melodia.
E outro tão importante quanto o Miles Davis, pra mim é tão
importante que no Brasil tinha que ter estátua em todo canto, deveria
ter, ninguém acompanha, ninguém reconhece nada que é
o Jackson do Pandeiro. O que esse homem deu para o Brasil. O que é
isso! Tão dando estátua para quem não merece nada.
Então esse. Vamos ver se acordam gente, para botar uma estátua.
Ele não está pedindo nada não. Ninguém está
pedindo nada. É uma obrigação ensinar que foi Jackson
do Pandeiro e quem é Jackson do Pandeiro. Principalmente quem é
Jackson do Pandeiro, no futuro, para as crianças, para o mundo.
Os EUA sabem dar valor a Miles Davis a todos seus músicos, aqui
não. Porque não é por causa da estátua, estou
falando da estátua como um símbolo. Porque o Jackson do
Pandeiro, pelo menos na terra dele, pelo menos na Paraíba tem que
ter a estátua dele. E se tem e eu não sei é porque
então vocês também são burros e não
divulgaram, tem que divulgar também. Então, outro genial
também é Borguetinho, esse graças a Deus está
aí com a gente para viver mais quinhentos anos. Esse é outro
cara que eu não sei porque, eu digo não sei mas eu sei porque,
eu não sei eu sinto. É um cara que eu tenho uma afinidade
tão grande. Então eu dediquei uma música para ele.
Quando eu toquei essa música aí já foi a cara dele.
E ele quando escutou a música, ficou parado na música. E
eu fiz a partitura e mandei para ele. Mas só que eu acabei gravando
primeiro do que ele. Porque minha ansiedade era muito grande de mostrar,
sabe como é sei lá de homenagia-lo. E também de fazer
isso para ele gravar também logo. E eu quero que ele grave essa
música porque será completamente diferente do jeito que
eu vou tocar.
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