| As Posições da Vizinha Foi no dia da Independência do Brasil que batemos na sua casa, no Rio. Ele jogou um estalinho pela janela e: Viva o Brasil! Aí vieram as histórias, a infância, o aprendizado, os amigos, cinema e sempre a música. Música que vem de dentro, do osso e do nervo. E entre uma música no violão, risos e lágrimas, desvelou-se um homem apaixonado e um grande compositor. |
Jards
Macalé |
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Eu nasci no dia
3 de março de 1943, 3 do 3 de 43, numa terça feira gorda
de carnaval, em pleno baticum de carnaval e de samba. A memória
que eu tenho de música são os cantos da minha mãe
que canta muito bem. Vivi cercado por música o tempo inteiro. Mas
nunca pensei em ser músico até que mudamos da Tijuca para
Ipanema, rua Visconde de Pirajá. Eu tinha uma vizinha que estudava
violão na cozinha, no mesmo andar. E deixava a porta entreaberta
dos corredores de cozinha para cozinha de apartamentos. E aí eu
ouvia e ficava olhando ali pela fresta, aprendendo aquelas coisas. As
posições da vizinha! Depois que ela terminava a aula, eu
pedia o violão emprestado e ia fazer as posições
que tinha visto por ali e tal. Aí fizemos um primeiro grupo chamado 'Os dois no balanço', o Chiquinho Araújo que gostava de bateria e eu. Armamos a bateria no meu quarto e, como ocupava todo o quarto e tinha um armário, eu tocava violão em cima do armário. Até que conheci o João Vianna, uma pessoa talentosíssima, então fizemos 'Os três no balanço'. Porque o balanço aumentava. Era dois no balanço, entrava outro e três no balanço, quatro no balanço, cinco, seis, sete no balanço. Quanto mais entrava gente, era mais um no balanço. E a gente formou um grupo de música que imitava Sérgio Mendes, a Bossa Nova. Na Visconde
de Pirajá, ao lado do meu edifício, tinha uma churrascaria
chamada Churrascaria Pirajá. Fizeram por ali também a TV
Excelsior. Então todos aqueles artistas iam lá. E indo e
vindo na churrascaria, comecei a conhecer algumas pessoas como Grande
Otelo, Vinícios de Moraes, Ciro Monteiro, Elizete Cardoso, Sérgio
Porto (o Stanislau Ponte Preta), Tom Jobim, Baden Powell. Ficava aquela
patota por ali. E eu ficava por ali também, pegando o violão,
arranhando daqui-ali, aprendendo um acorde daqui-ali naquela conversa
maluca. E minha mãe apavorada que me via chegando em casa meio
tonto de um choppinho só. O porre de um chopp só. Aí
uma vez eu demorei demais, ela desceu: - Meu filho você não
pode ficar! Fez um pequeno escândalo, de mãe, né?
- Você tem que ir pra casa, brsfngngnjst!!!!!! Aí o Grande
Otelo disse: - Minhha xsenhora, desxsculpe. É a mãe do rapazz?
- Como é o nome da sua mãe? Eu disse: Lygia. -Dona Lygia,
ele esxxtá com a naata da arrte brasileira, a ssenhora não
se prreocupe. Queria te apresentarr, porr exempllo, o poeta Vinicioss
dje Moraijxs. Aí o Vinícios - Âhhnn. - O maexxxtrro
Antônio Carrloxx Jjiobim. O esxcrritorr Sxtanixxlau Pontje Preta.
O violonissxta Baden Powel. E o Baden apagado em cima do violão.
E a 'fina flor' era um bando de loucos maravilhosos. Minha mãe
que tinha uma sensibilidade artística muito grande, apesar da preocupação,
disse: - Tudo bem, mas daqui a meia hora em casa. Só que eu sumia.
Lá ia eu com o Nelson do Cavaquinho, Ciro Monteiro, ia pra porra
da gandaia. Sumia duas, três noites. Aparecia. Ia deixando um por
um. Ia bebendo do Leblon, pela Visconde de Pirajá afora até
deixar o Nelson do Cavaquinho láááá no subúrbio.
Acabava no Largo do Machado, com o Ciro Monteiro deitado no chão,
de perna cruzada, batucando caixa de fósforo pro teto. Então
essa é a minha escola.... Outro dia, Capinam me revelou uma coisa que eu fiquei até surpreso. A música que mais gosto da chamada Tropicália tinha sido feita no quarto dos fundos lá de casa e eu não sabia. É 'Clarice'. Caetano e Capinam fizeram lá em casa e eu nunca soube disso: mas 'Clarice' foi feita na sua casa, naquele quartinho dos fundos, que tinha aquele beliche, um em cima e outro em baixo, dizendo frases e fazendo a música. E a música que eu mais amo dessa história toda é 'Clarice'. Aí me casei com a Gisilda Santos, irmã do Turíbio dos Santos, que aliás, eu ficava impressionado com ele ficava tocando violão 24 horas por dia. Ele estava se preparando para o Festival Internacional de Violão em Paris. E ficava de olho no violão dele. O violão dele é esse que está aqui, (aponta). Ele ganhou o FIV e começou a experimentar violões alemães, franceses, espanhóis e deixou esse violãozinho assim..... dando sopa no salão... E eu disse: puxa! gosto tanto desse violão.. Aí ele me passou o violão por um preço simbólico. Vinte e tantos anos depois, ele me confessou: puxa, eu experimentei tanto violão na vida... aquele violão é o melhor. Você não quer... Eu digo: não. Depois de
anos morando em Nova York, o João Gilberto voltou e ia fazer um
show no Canecão. E andou procurando O Guilherme
Araújo conheceu Maria Bethânia lá em casa e sacou
que ali tinha uma mina de ouro enorme. Produziu o O primeiro disco foi uma loucura, porque éramos eu, Tuti Moreno na bateria e o Lanny Gordin, na guitarra. Fomos pro porão do teatro Opinião, aqui no RJ, no meio daqueles restos de cenário. Nós ficamos os três ali tocando uma semana direto. Quando senti que estava uma coisa inteira, eu disse: tá pronto o disco. Entramos no estúdio e gravamos, os três. O Lanny tocou baixo, contrabaixo e depois ele botou as guitarras. Mas eu gravei tudo com violão, porque eu sempre quis tudo acústico. Eu não sei porque fizeram essa viagem toda pra depois desplugar tudo. Tinha que experimentar o barulho pra tirar da tomada. Só o humor nos salva. Não há coisa mais séria do que o humor, não há pessoa mais séria que o humorista. A visão do humor é uma visão saudável na hora em que você raspa o drama. Porque as coisas são muito dramáticas, o mundo é dramático. Então você raspa o drama, você exacerba a realidade. Eu sempre gostei do ridículo no humor. Sempre gostei de Chaplin, Oscarito, meu ídolo é o Grande Otelo, que é um dos maiores atores do mundo e é das pessoas mais dramáticas do mundo. O humor salva até o ridículo, salva a dor, o humor é a salvação. E eu apliquei isso no meu trabalho. Ainda mais quando fiquei frente a frente com o Moreira da Silva que é o elogio do humor. Ver a coisa mais dramática através do humor, dar a volta por cima da dor. A formação de rock era inevitável, porque na época antes de querer ser músico, era tudo uma influência de rock americano, 'Rock Around the Clock', Little Richards, Elvis. Até que você vai se descolonizando. Quando ouvi o violão do Nelson Cavaquinho, o Elvis desmontou pra mim. Não é que não seja bom, são duas coisas totalmente distintas. Mas como instrumento, como sonoridade, como identificação, caí no Nelson Cavaquinho, caí no Baden. Então cheguei à conclusão: Nelson Cavaquinho inventou essa forma de ser, Elvis inventou aquela forma de ser. O que vale é a invenção. Eu quero inventar uma forma de ser. Agora, naquela época a gente tava fazendo uma corruptela do rock que a gente ouviu. Aí quando eu ouço o 'Cultura e Civilização', tem aquela anarquia, a desmontagem do próprio rock. Outro dia fizeram um especial na rádio JB, do meu trabalho e das várias coisas que eu participei. Eu ouvi aquilo e disse: eu era heavy e não sabia! Não é esse rockinho que tá por aí não, era rockão, não tô esculhambando o rockinho, aliás tô sim. Tá pobre demais. O rock empobreceu. Não devia ser isso. A busca do novo continua. Olha, duas pessoas que muito me influenciaram não estão nem na música, estão nas artes plásticas. Se há alguma coisa que me mantém vivo é o pensamento e a energia dessas duas pessoas. Uma é mineira: a Lígia Clark, que é a invenção, o pensamento puro da invenção e a concretização da busca dessa invenção. E o outro é Helio Oiticica, um out of control. Meus dois grandes amigos. E se de vez em quando eu baqueio, eu penso neles. Arte só existe, só tem um fundamento se for baseada na invenção. Se não, ela é nada. Devem haver inventores na música brasileira nesse momento, mas não os vejo porque estamos soterrados com essa globalização idiota. Não há possibilidade de distinção entre quem tá inventando e quem não tá inventando. Tudo é. Isso mata o próprio sentido maior que é a invenção. O único bastião que existe é uma coisa chamada liberdade de expressão, que leva o indivíduo a ser o que ele é, a inventar-se e se reinventar. A saturação de informação acaba levando a coisa alguma. A gente precisa é de desinformação. Teve uma hora que eu tive que desligar tudo, deitei aqui e pensei: quem sou eu? E eu porra? Não é egoísmo não, porque de repente você tá com todo mundo e não tá com ninguém. É selvagem! Não é pessimismo não. Ollha que eu sou um pessimista otimista pra caralho! Mas tambem sou um otimista pessimista. O mar... a água... nós viemos da água. E a emoção da partida e da chegada é sempre muito grande. E uma partida ou chegada de barco no mar não precisa ser Caymmi pra se emocionar. Eu não moro em SP porque não tem mar, não moro em Minas porque não tem mar. É uma questão de horizontalidade, o mar tem uma imensidão...e eu tenho essa fixação. Aprender a nadar, tudo. Eu gosto
muito de cinema. Inclusive influenciou a minha coisa de música,
de apresentação. Porque cada música vira uma peça
visual, eu gosto disso. Tem coisas que eu comecei a fazer visando estritamente
visualizar a música. Contar a história de uma forma cinematográfica.
Em algumas eu consegui, outras nem tanto. |
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